segunda-feira, 4 de março de 2024

A pseudo-metáfora do Capitão Gancho sob tempos reflexivos

Cansei de ver crianças com coriza ganhando os presentes mais caros das lojas de shopping por pura implicância e explicação freudiana para no fim, brincarem com a caixa. se adolescer é como um murro no estômago, "adultescer" é como uma úlcera. dói, e aquela criança que antes tinha a desculpa da birra infantil para se apegar, agora precisa engolir seco. homem não chora. quantas repetidas vezes escutei essa maldosa frase? é claro que chora. faça o teste e tire um dente molar sem anestesia. ou lhe fure o mamilo com uma agulha de ponta espessa. arranque dele suas pessoas preferidas. lhe dê suco de wasabi ou o mande cortar cebola aniversariante (aquela que já passou tempos nos confins da geladeira). isso, não está para discussão de gênero e em demérito das mulheres. para este eu-lírico não há espaço de dúvida. mas desvencilhar esta ideia engendrada nos primeiros dez anos uterinos é de ranger os dentes. eu choro! e eu sou homem! hoje eu, por exemplo, já consigo apagar a luz de um cômodo e não sair correndo com medo do demônio. consigo conceber que a maioria dos demônios estão dentro da gente, e quem os alimenta somos nós. por vezes, me pego pensando na minha promessa-Peter-Pan que fiz aos sete anos: a de que nunca ia crescer. os hormônios e as responsabilidades são a metáfora precisa de Capitão Gancho nesse caso. outro injustiçado. 

as páginas online de piadas ultrapassadas gostam de apontar que ser adulto é só sobre pagar boleto(s). eu finjo risada quando algum sujeito nota 06 me re-conta essa piada. é sobre pagar boletos e o preço daquilo na qual você foi submetido anteriormente, na sua imaturidade demasiada. 

por exemplo, hoje eu tenho menos fôlego que antes devido a alta quantidade de cigarros que fumo diariamente. aliás, esse ano faz dez anos que convivo com minha amiga Nicotina. maldita amizade tóxica. 

além disso, o mais injusto, é quando você paga pelo preço do outro. pais de geração X que decidiram se casar por pura convenção social e que descarregaram um caminhão de traumas em um jovenzinho na primeira infância. ou posso ser mais infame e contar dos inúmeros casos de toques sexuais não solicitados e assédios tantos. mas não preciso.

as vezes, o preço que a gente paga por adultescer é muito mais denso do que apenas boletos. 

vivo o desprazer de criar relações na era menos tátil da história. receio dizer que nem nas muitas pandemias que a história apresentou estávamos tão sem contato. 

as relações esfriaram. acredito no aquecimento global pela fé na ciência e pela onda fria que as geleiras dos polos do globo emanam para as pessoas. romântico? nem tanto. 

hoje eu só gostaria de ser aquele pequeno jovem que brinca com a caixa. que dela vira um avião, um esconderijo de sereias, um vulcão, etc etc. mas não dá, os boletos estão aí para me impedirem. Capitão Gancho você me paga por concordar com piadas básicas.

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segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

Dear Old Pink (finalmente)

 Queridy Pink Mamba, 

Eu havia prometido fazer uma carta para você do passado. Como já havia vomitado antes, eu sempre gosto de escrever cartas para o eu do futuro, e hoje, decidi, sem entender o real motivo, escrever uma carta para o antigo Guilherme. Das palavras bonitas que o blog carrega o nome eu peço licença para desconsiderar. 
Primeiro que o tempo não só envelhece, como adoece, e não gostaria de te desestimular. Algumas coisas de fato melhoram, como por exemplo, você percebe que os bons amigos são aqueles cinco ou seis que ficam, e por mais dolorido que seja despachar pessoas em estações, é satisfatório ver quem ainda está com você. Vida longa as antigas amizades que conheceram suas várias versões. 
Mas sim, o tempo adoece. Literalmente, mas dessa vez, quero romantizar. Você sempre foi uma criança muito imaginativa, criativa, corajosa (em partes) e feliz demasiadamente. Com o tempo, fator crucial pelo adoecimento, parte da sua atividade imaginativa abdicou da cadeira de assento prioritário para as famosas frustrações. E SIM, você continua sendo imaginativo, mas parte do tempo, quase integral, é confabulando os piores cenários, como a morte, que te cerca de todos os ângulos e dando palco pra um colega desagradável que você vai tomar consciência por volta dos 18 anos, o famoso: pânico. 
Antes pânico fosse somente uma franquia de sucesso de Hollywood. Estaria tudo melhor. Mas nem tudo são flores artificiais de cemitério, a criatividade sempre vai andar lado a lado com você. Ela e o Pânico são rivais, pois ela suaviza seus encontros com ele. Além do mais, te asseguro que você irá trabalhar muito com ela. Haverá espasmos criativos quase todos os dias. Irá cursar Artes, que você sempre sonhou e irá trabalhar com várias pessoas que tem pulsões parecidas com a sua. Ímpeto de fazer aquilo que você também sempre sonhou em fazer. De fato, não será um caminho fácil. Você vai encontrar muitos parasitas buscando hospedeiros, mas também muitas pessoas de função inseticida.
É, os problemas com o corpo também mudarão de figura. Se hoje, aí no passado, você se odeia por ter um corpo gordo, aqui no futuro, esse fato é apenas um fator expoente pra você não deixar morrer seu alter-ego, agora aposentado, mas ainda vivo. As preocupações com o corpo serão outras. Muitas delas, têm a ver com o Pânico, mas também com outra adversária: A Autoestima.  
Você irá procurar psicólogos e terapeutas renomados, mas a resposta estará muito mais fácil de acessar do que você imagina. Hoje, sei que a minha ferida mais latente é o medo da rejeição. É, pequeno Guilherme, ela acontece. Não como o clichê de um filme da Disney Channel. (Aliás, aqui no futuro a Disney Channel nem tem mais tanta graça.) 
Você passará um tempo morando com desconhecidos, morará sozinho e retornará, também, para o colo da sua mãe. E se eu pudesse te dar um conselho precioso seria: facilite a vida da sua mãe. Ela, infelizmente, abdicou de muita coisa para que você pudesse ter uma vida confortável e esse seu senso de rebeldia nuclear - EU SEI DE TUDO - EU ODEIO TODO MUNDO -  é completamente deplorável. Você, ainda bem, reestabeleceu uma boa relação com uma família que te aceita e te ama em suas desmedidas e imensidões. 
Sobre aceitação, por mais que o medo da rejeição seja inconsciente, a aceitação liberta. O tempo adoece, mas a aceitação liberta. 
Te aviso para tomar cuidado com os reizinhos que permitir adentrar o seu reino, entenda como quiser. Alguns deles deixarão feridas expostas cheias de larvas em você. E você, de maneira errônea, irá tentar revidar de maneiras catastróficas e vergonhosas. Alguns vilões sequer tem cacife para assumirem esse papel, portanto não dê tanta importância. E ah, pare de atribuir culpa aos outros pelas suas ações e expectativas, isso vai reduzir seus problemas pela metade. 
Você vai conhecer pessoas maravilhosas e mostrar sua alma para elas, mas nesse caminho será fácil se confundir com as controversas. Enfim, sempre sobre pontos de vista. 
Eu te acolho, eu te perdoo, eu te desculpo. E você irá aprender, com o tempo o quanto esse movimento é importante. 



Prometi postar com essa. E sim, você ainda ama a Rainha do Rap. 

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segunda-feira, 4 de dezembro de 2023

Ferida que não Sarah

Sarah tem o nome de origem Hebraica. Estéril até os 99 anos, até que foi mãe de Isaac. Daí, o Deus uno de Gênesis capítulo 17, versículo 15 e 16, diz “De agora em diante sua mulher já não se chamará Sarai; seu nome será Sara.Eu a abençoarei e também por meio dela darei a você um filho. Sim, eu a abençoarei e dela procederão nações e reis de povos".

Conheci Sarah num rompante. Logo me apaixonei. Ela era totalmente subversiva. Poucos anos antes, eu já ouvia falar seu nome pelas bocas injustas e ignorantes. Ah, essa menina beija meninas, diziam. Ela era uma personagem saída dos quadrinhos ou de um filme da A24. De cabelo sempre colorido, e de risada gostosa. Fomos se aproximando, se aproximando. Fiquei completamente apaixonado. Nosso primeiro encontro foi na sua casa vendo clipes conceituais e comendo uma travessa de bolinha de queijo frita no óleo quente. 

Quero frisar que concordo muito com a Mônica Martelli, quando ela diz que nós nos apaixonamos pelos nossos amigos, por que a gente começa a compreender seus defeitos como meras manchas de acne, e começa a deglutir eles como um bom e curado conhaque. Amargo, porém sedutor. E eu me apaixonei por ela. Nesse sentido.

Tivemos muitas trocas verdadeiras. Nós nos mostramos vulneráveis, já choramos juntos. Já dividimos a cama em quatro pessoas. Já realizamos as maiores fantasias juntos. Até me ver transando a pobrezinha já viu. Tínhamos ideias toscas e joviais, como a de tomar remédio para infecção urinária pelo simples fato da urina sair colorida. Nunca me esqueço que, quando ela viu o próprio xixi, decidiu tingir o cabelo com aquele verde encorpado logo em seguida. Qualquer pessoa amaria tê-la por perto. Os cabelos sempre traziam uma nova skin para minha amiga. Teve o branco que dava um ar de atriz pornô, daí teve o ½ rosa ½ laranja da Hayley Williams, daí teve o azul sereia, o rosa harajuku e finalmente o verde xixi (meu preferido). 

Sarah sempre teve facilidade com cabelos. Ela era uma das únicas que eu confiava para desenhar com a maquininha no meu couro cabeludo. Fazia uma excelente hidratação, fazia tranças africanas, fazia penteados incríveis. Foi com ela que a minha afilhada cortou o cabelo pela primeira vez. É claro que tem que ser com ela, ela é minha amiga, bati o pé. Ela também esteve nos meus bastidores em 2018, numa peça mal escrita que fiz na minha cidade natal, inspirada pelos espetaculares contos de Agatha Christie. Que senso corajoso. O texto virou uma desonra ao legado de Christie, porém ficaram boas lembranças da época. Sarah fez o cabelo de todas as minhas atrizes, e o seu cachê foi puramente créditos nas linhas finais do espetáculo. Mas ela deu o nome na festa que fizemos depois, como sempre. 

Durante a desgraça da década de 20 do século 21, auge do medonho Covid, Sarah perdeu o seu pai. Seu pai era um tiozão, totalmente querido, que passava a melhor bisteca de todas, e que adorava receber os amigos da Sarah na sua casinha abraçadora. Foi um momento terrível. É sempre importante lembrar que, na época, os velórios duravam menos que de costume, e que você podia prestar condolências às pessoas que perderam entes queridos apenas de longe e não podia abraçá-las. Não podia desejar os sinceros sentimentos. Não podia. Principalmente se a causa da morte fosse o Covid. Eu estava lá. Ouvi seus gritos, Sarah, desejando que aquilo não fosse real. Mas seu pai descansou, depois de semanas de saturação baixa e descasos políticos quanto à vacinação. Essa culpa sempre irei atribuir ao presidente da época. Jamais o perdoarei. 

Pois é, nem tudo são flores. Sarah sempre se apaixonou pelas pessoas mais encruadas. O que ela tinha de saúde no resto do corpo, ela tinha de necrose no dedo indicador da mão direita. Nunca vi. Já cheguei a questioná-la e ela sempre desviava o assunto. Alguns foram marcantes, outros foram meros figurantes de uma fala só, como aquela garçonete da lanchonete pin-up, ou um porteiro carismático de uma novela qualquer. 

Um destes figurantes, deu à Sarah a benção de ser mãe. Assim como Abraão fez com Sarai na Bíblia por intermédio do Deus uno de Gênesis. Ao contrário do texto bíblico, Sarah não teve um menino e sim uma menina. A escolha do nome foi especial, porque a única outra referência de mesmo nome, era uma drag queen de um reality show que eu amava na época da sua gestação. Colocamos uma música de ballroom e foi a única dentre tantas que a bebê se mexeu durante horas tentando influenciá-la a gostar de rock alternativo ou as clássicas da MPB. Tarde gostosa, nós nos matamos de rir. 

Diante de todos os relacionamentos frustrados, choros encargados e cárceres privados que eu assisti minha amiga Sarah vivendo, o mais dolorido foi o último. E esse relacionamento é o porque eu tomo nota deste texto. Ela se apaixonou por uma mulher. 

Essa mulher nasceu na década de 80, em algum bairro dos Estados Unidos, filha de outra branca bem conhecida. Parida no epicentro do Capitalismo, e ficou rapidamente conhecida no mundo inteiro. Pois é. Para os rápidos no gatilho, vocês já sabem de quem eu estou falando. Para os mais lentos, que fortaleçam a memória. Para os céticos, que doença mais terrível. Para os cristãos, obra do inimigo. 

Sarah e essa mulher se conheceram por intermédio do próprio encourado. Concordo com os cristãos, às vezes, quase nunca. Dessa vez sim. O encourado começou a namorar Sarah rapidamente. Como um adicto. Ela estava trabalhando numa livraria, trabalho este que, sempre combinou esteticamente com a mesma, e o encourado foi lá imprimir um currículo. Não sei como nem quando isso aconteceu, mas confabulo uma cena meio de filme romântico. Os relacionamentos costumam surgir na falta de algo, e este não foi diferente. Ela vinha de anos recheados de solidão pela maternidade, pelo descaso do figurante que a deixou prenha, mãe em tempo integral, prestadora de serviço em horário comercial, órfã de pai, sem muitas prospecções. E se debulhou no encourado. 

Sarah não me contou do novo namorado, eu fui ver pelas redes sociais que ela havia começado a namorar. Mandei mensagem e ela me contou estar morrendo de amores. Ufa, minha amiga será correspondida, pensei. Que este namoro venha com tudo de bom que ele possa vir. Amém. 

Eu estava errado. Errado. Logo o encourado começou a se mostrar vulnerável e agressivo. O rosto dele não o deixava mentir, por mais que eu caia na besteira do estereótipo, e isso soe preconceituoso. Sigo crente de que pessoas carcerárias, devem ser ressocializadas na sociedade sim, porém, ainda peco em colocar todos numa mesma caixa. Abraão que me perdoe. 

Finalmente o conheci, no começo de outubro de 2022. A pandemia estava flexibilizando os contatos, e trombei com o casal. Minha amiga sempre linda e alegre, estava pálida e apática. AMIGA QUE SAUDADE. oi amigo, tudo bem? CLARO QUE NÃO NÉ, FAZ MESES QUE NÃO TE VEJO. pois é, tô sumidinha. Que diálogo mais tosco. Combinei ele ainda com vodka vermelha e refrigerante de laranja. Muito prazer, encourado, me chamo Guilherme. O filho da puta ainda se mostrou abraçador, como a casa do falecido pai da minha amiga. Logo foram embora, de maneira discreta e ali eu ainda não podia prever o que minha amiga iria passar quando abrisse o seu relacionamento para a mulher entrar. Vamos chamar essa mulher de Cramunhão. 

Depois disso, passaram-se semanas discretas que eu não tive notícias da minha amiga. É claro que o senso deturpado e egoico do eu-lírico que aqui transcrevo esta experiência, procurou nos resquícios das doenças mentais de caráter sabotador, algo para se culpar. Talvez eu tenha uma parcela de culpa, mas se eu jogar larvas nessa cicatriz ela volta a ficar ferida. 

Ah, que saudade da minha amiga Sarah. Aquela minha amiga que estava sempre comigo, que me abrigou em sua casa quando eu tive desentendimentos físicos com o marido da minha mãe, que fazia o melhor bolo de floresta negra, e tinha a audácia de colocar pimenta biquinho em todo e qualquer molho vermelho. Aquela minha amiga, que cantava  “Solitária” da Banda mais bonita da cidade, e que ia, frequentemente, comigo até ao cemitério para queimar um baseado. Será que dali surgiu a vontade de se relacionar com a mulher que hoje namora? Receio que, frequentemente, me pego pensando como um ex capitão do exército nesses meus moralismos. 

As notícias correram, e na cidade do interior que eu vivia, não demorou muito para chegar até mim. Sarah estava envolvida não apenas com o encourado, mas também com o Cramunhão. Que baque! E eu pensando que coisas assim só aconteciam nas minisséries e nos filmes dramáticos, e em cenários apoteóticos dos polos culturais do país. Mas não. Está mais perto do que imagina. Logo ali, na pessoa que dividia cama, piras, e intimidades comigo. Na minha amiga Sarah. 

Daqui adiante houveram inúmeras situações de embrulhar o estômago, e Sarah morou na minha cabeça por noites e noites, sem pagar aluguel. Quantos cabelos brancos eu não adquiri, hein. E reencontrar amigos da época onde vivíamos nossas mais deliciosas aventuras joviais era como um nocaute. Falar sobre a Sarah, pensar nela, ouvir falar dela, responder perguntas indesejadas sobre ela. Tudo muito delicado e sensível. Dediquei uma peça de teatro a ela. Era um dos poucos mínimos que eu fazia no meu extremo. Além disso, fui até a Igreja Presbiteriana para ver o pseudo-batismo de sua filha. E ela era a única que não estava presente. Aliás, o sentimento era que eu era o único presente. Sua família toda sentindo aquela angústia interna da perda e do luto de alguém que estava viva. Mas que a gente não recebia notícias sólidas. Você me paga por me fazer ir na igreja de crente, Sarah. Você me paga. 

Os soluços discretos da viúva do pai, as olheiras dos olhos da tia, o mal-estar inquieto do irmão, e a inocência da sua filha foram cenas dramaticamente marcantes. O Figurante que a embuxou estava lá. Mal olhei pra ele. Dedo necrosado esse o da minha amiga, já disse. O Pastor era seu tio, e ele chamou toda a família para subir no altar. Eu fui o único a ficar sentado nas cadeiras desconfortáveis da igreja. Depois, a célebre comemoração fúnebre foi marcada por um café da manhã, e preciso admitir que fui tão bem tratado que até pensei em voltar. Maldito ceticismo. 

Enquanto escrevo, não tenho certeza do seu paradeiro e tampouco da minha fé que você saia disso. Se alguém que estiver lendo isso ainda não entendeu, peço desculpa a quem se incomodar, mas devo admitir que, mesmo usando nomes fictícios, a história é real. O Cramunhão é uma metáfora sobre uma famosa droga que mata anualmente várias pessoas pelo mundo. O Crack. Hoje, qualquer comentário que seja indigesto sobre o assunto, não passa mais pelos meus ouvidos desatentos. E minha amiga, me desculpe, dar um nome tão tosco ao texto, é que isso tudo é uma grande ferida que não sara. Como o nome pressupõe. 

Esse é um relato sincero de uma pessoa que está longe e perto de uma amiga adicta, e sinto o desejo estarrecedor de que as pessoas possam saber o quanto isso dói. Isso sim é política antidrogas. Não aquela xoxeira de Proerd. Que os céus, e quem possa ajudar, me ajude a encontrar paz nessas feridas, e que eu possa ter a possibilidade de repetir muitos “te amos” pra minha amiga ainda. Em vida. 


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sexta-feira, 24 de novembro de 2023

Solicitação de Benefício por Incapacidade Permanente da minha persona Pink Mamba

 Hoje estamos nos encaminhando para o fim de Novembro. Começo de Dezembro de 2023. Muitas coisas aconteceram nesse ano. Coisas desconfortáveis da vida adulta. Uma frase que permeou os ouvidos dos meus amigos & colegas esse ano foi "poxa, a vida adulta chega sem lubrificante", pois eu repeti ele demasiadamente como um louro. 

Também hoje, é sexta-feira, black friday, e eu resolvi escrever neste blog sem me importar com concordâncias nominais e qualquer termologia da gramática, pois me sinto completamente desprendido da necessidade das "palavras bonitas" que carrega o nome do blog. 

Assumo também que, quando voltei a usar esta plataforma, imaginei que fosse ter muitos mais momentos ociosos onde eu poderia só vomitar coisas que antes eu guardava a sete chaves dentro do Bloco de Notas, mas como eu disse e repito: a vida adulta chega sem lubrificar. 

Hoje, fim de Novembro, sexta-feira, black friday, pela manhã, me coloquei a pensar o quanto eu já fui mais interessante. Seria desonesto admitir que isso diz respeito unicamente à aparência física. De fato, as linhas de expressão e manchas na pele tomaram os lugares dos piercings e roxos no pescoço (fruto de uma vida sexualmente ativa e mais feliz), mas hoje, novembro, fim, sexta-feira, black friday, pela manhã, percebo que isso está para além. 

Antes minhas prosas eram recheadas de uma personalidade que não ligava para ser errônea e desbocada, que poderia facilmente ser um personagem escrito por Chico em "Ópera do Malandro", cheio de frases prontas, conversas inteligentes, flertes inesperados e vocábulo academicista. Hoje, fim de Novembro, sexta-feira, black friday, pela manhã, durante os pensamentos decisivos, percebo que minha personalidade mais se assemelha àquelas que eu tanto tinha o costume de criticar. 


Não me importo tanto mais com os termos academicistas, por que a maior parte das pessoas que coexistem comigo são nefastas no quesito. E eu preciso presar pela boa vizinhança. Hoje, [insira aqui a introdução linear crescente que vim desenvolvendo nos parágrafos acima], as frases prontas são outras, que tudo resume em "estou cansado", "preciso de saúde", etc etc. As conversas inteligentes foram recalcadas por um compilado de fofoca e relatos de uma vida nostálgica. E hoje, sinceramente, eu prefiro por um fone e ouvir qualquer instrumental clássico a ter que conversar com as pessoas. Os flertes inesperados se tornaram alergias. Eu explico. 

 A alergia são reações do sistema imunológico a substâncias estranhas, numa rápida pesquisa pela inteligência artificial. Eu sofro com rinite alérgica há muitos anos. Minha infância foi marcada por idas e vindas na minha amada Otorrino Dr. Andréia, por conta da mesma. Hoje, [insira aqui a introdução linear crescente que vim desenvolvendo nos parágrafos acima pt. 2], a rinite alérgica, piora o quadro de seis em seis meses, mas não de forma religiosa. As vezes eu fico com mais coriza, com o céu da boca coçando e dermatite de contato. Assim como os flertes inesperados. Acontece, porém, na frequência de uma crise alérgica. Até por que não me sobra tempo e eu decidi não priorizar. 

Portanto, Hoje, e foda-se a introdução repetitiva, eu lembro de uma amiga que em meados de 2018 me contou que aposentou sua persona, alcunhada pela mesma de Rúbia, e que posteriormente, descobrimos ser o nome de uma entidade que ela incorporava. Coincidências sobrenaturais. Mesmo adulto ainda não me acostumo. E, eu nunca me senti como a mesma. 

Desenvolvi um alter-ego nominado por mim de "Pink Mamba" para lidar com alguns sentimentos, como a rejeição e o distanciamento da autoestima. Pink pela rebeldia, Mamba pela acidez, Pink Mamba por conta do filme do Tarantino, onde temos a Black Mamba, e por Pink ser o título de três álbuns da minha artista favorita no mundo: Nicki Minaj. Fez sentido por muito tempo. Mas, hoje, solicito sua aposentadoria. Não me causa mágoa. Eu prometo escrever um texto de "Dear Old Pink" pra ela, mas este não é o momento. 

Poderia facilmente colocar todos esses parágrafos para "serem melhorados" pela inteligência artificial, mas vou aproveitar do privilégio de ainda poder me expressar pelo recurso da escrita, antes que seja tarde. Espero que esteja convincente o suficiente esta justificativa de solicitação de benefício (aposentadoria) por incapacidade permanente desta persona, eu só não sei a quem endereçar. 

Enfim, cansado de escrever... Hoje, fim de novembro, sexta-feira, black friday, pela manhã, nos momentos decisivos e nostálgicos, e como de costume. 

Nova Esperança, 24 de Novembro de 2023. 

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sexta-feira, 15 de setembro de 2023

Feliz dia dos Pais. Agosto de 2023

 Oi pai. 

Não é a primeira vez que eu te entrego algo em mãos e fujo para esperar sua possível reação. Lembra quando eu gravei um vídeo para você me deixar cursar Artes com vários amigos e amigas que me apoiavam? Pois bem.

Bom, tenho receio de usar certas figuras de linguagens e meias palavras com você. Você sempre me passou um ar de seriedade e eu não sei até que ponto eu posso chegar nas brincadeiras. 

Meu jeito sempre foi e continua sendo assim. O sujeito que usa de recursos linguísticos pra camuflar muita coisa intrínseca. E talvez você nem saiba o que “intrínseca” significa, mesmo por que sua área de atuação é outra, mas, é o que eu disse… eu sou assim. 

Antes eu até achava que fosse difícil a nossa comunicação. Hoje eu entendo que ela funciona como os velhos “Walkie-talkie” funcionavam nos anos 80. Eu te comunico algo pontual. Você ouve. Comenta algo pontual. Eu ouço. Câmbio desligo. 

Tudo bem, hoje eu torno sólida a ideia de que sua criação foi outra, que os tempos mudaram e que se você aumentasse o tom de voz com seu pai, meu falecido avô João, ele te meteria um murro na boca que levaria todas as coroas da sua arcada dentária no punho. 

E tudo bem, eu já entendi que eu também não o entendo. O Renato Russo tinha razão quando disse isso, por mais que Legião Urbana esteja completamente saturado hoje em dia. Até minha hipnoterapeuta disse isso. Não sobre a banda de rock, mas sobre eu não te compreender. 

Quando eu nasci, cru, uma folha em branco, você já era macho criado. Afeiçoado pela família, bem querido e, por vezes, mal intencionado. Galanteador, com voz de cerimonialista, radialista e de piada ensaiada. 

Eu fui me construindo e aos poucos, percebendo o abismo que existia entre nós. Você tinha teus amigos homens e eu sempre me identifiquei mais com as minhas amigas meninas. Você idolatrava o São Paulo Futebol Clube e eu, idolatrava a Xuxa rainha dos baixinhos. Você via futebol às quartas, e eu odiava as quartas-feiras porque sempre a novela das nove (na época das oito) era mais curta que nos demais dias. 

Você me colocou na escolinha de futsal, mas eu morria por dentro por que eu amava dança e Ballet parecia um sonho inalcançável. Talvez eu tenha virado artista por rebeldia. Algum analista concordaria comigo. 

Veio sua doença, e com ela, uma hipótese pequena pra uma pequena criança de crescer sem o pai presente. No caso, morto. Quis os céus que não fosse esse o destino. Sua morte repentina. Talvez eu até fosse mais conturbado do que eu já sou, caso esse tivesse sido o enredo. Felizmente não foi. Mas o pai presente, nem sempre, esteve vivo. 

A distância entre nossas realidades me impediu de te contar tantas verdades sobre mim e ouvir os conselhos sinceros de alguém que, genuinamente, só me queria bem. Você não soube do meu primeiro beijo, da minha primeira vez, do meu primeiro porre, entre outros. 

Eu também pequei. Eu reconheço. Mas com meu entendimento de hoje, eu vejo que eu já nasci errado. A gente que é assim, já nasce “com um certo problema”. Fui o “problema” de algumas professoras, catequistas, e vivenciei horríveis e traumáticas experiências de bullying. E você não soube. Eu não podia te contar. E ah… como eu quis te contar.

Depois veio a separação, e sinceramente, fora do meu inconsciente ela não foi tão ruim. E por mais que eu saiba que há coisas intrínsecas (a palavra aqui de novo) nesse rompimento, eu nunca identifiquei taticamente os malefícios disso. Porque o meu Pai não podia saber das verdades sobre mim. De quem eu era. Ele longe era mais fácil de esconder. 

Quantas vezes eu já não corri esconder bonecas da Karina, minha melhor amiga, quando você chegava para não sofrer represália. E nisso eu devia ter menos de 05 anos. Como eu poderia estar sendo punido (ou temendo a punição), por ser quem eu era? 

Por que eu não podia ter uma boneca da Ariel? Eu sempre amei a Ariel. Agora já na faixa dos vinte anos eu fui até ao cinema assistir A pequena Sereia e foi um abraço naquela criança que tinha sua boneca escondida. Me emocionei muito no filme. 

Voltando pra linha do tempo, não bastasse eu já ter dado “errado”, eu tinha que ouvir todas as mais cruéis barbáries da sua boca sobre pessoas que eram IGUAIS a mim. Que tinham o mesmo defeito. Que também deram errado. Mesmo cruas, folhas em branco, deram errado. Foi muito dolorido. 

Eu disfarcei. Não muito bem. Me diga você. 

Quantas, milhões de vezes, eu desejei a minha própria morte a não ter que te contar toda a verdade sobre minha realidade. Sobre algo que eu sequer tive escolha. Sobre ser quem eu sou. Nessa caminhada, muitos outros não tiveram o êxito que eu tive em me manter vivo. E em citar isso eu também morro um pouco. 

E se não bastasse já ter dado errado antes, eu ainda optei por ser artista. Que hoje vejo ser um pulsar de luz, um fulgor diante de toda às avessas escuridões. Mas que me custou ouvir mais, incontáveis, comentários teus. 

Fui muitas vezes ignorante, muitas vezes joguei merda no ventilador e eu não culpo o mapa astral ou nada. Eu assumo esse boletim de ocorrência. Talvez meu traço mais masculinizado seja ter a pose sisuda quando creio na minha verdade ou quando boto o rabo entre as pernas e reconheço onde pequei. 

Eu te perdoo por tudo. E antes que algum de nós mude de dimensão, eu quero deixar isso muito nítido. Eu te perdoo por tudo. Por não estar presente nas minhas peças teatrais, por não me ver no Ballet, por não acompanhar e aconselhar minhas primeiras vezes, pelo abismo da nossa relação, pela falta de ímpeto em unir a minha figura a todo o resto da minha família paterna e principalmente, por você ter prospectado tanto esse momento que agora se encerra. Esse momento em que eu te digo a maior e mais dolorosa frase: Pai, sim, eu sou gay! 

E não há cura, não há pecado, não há dinheiro, não há partido político ou entidade que vá mudar isso. É sobre quem eu sou. É sobre com quem eu me relaciono. É sobre mim. 

E também peço desculpa por quebrar suas expectativas jogadas sobre mim. Mas isso é sobre você! É sobre o seu processo de evolução entender. E você que deve lidar com isso. 

Eu te amo, por mais cinza que às vezes eu possa parecer e imaturo. É só pelo Guilherme que teve sua Ariel escondida lá atrás. Quero muito acalenta-lo. 

E acabou os momentos de angústia que antecederam esse dia. Acabou os momentos de camuflagem da minha melhor faceta, e que se encerre aqui tudo que, eu, um dia, temi. Esse ciclo se encerra aqui. Apenas um homem forte como eu, filho de um homem forte como você, poderia fazer isso. 


Câmbio desligo. Guilherme Stella. 13/08/2023.


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segunda-feira, 26 de junho de 2023

O "Nada Ortodoxo" que encabeça o curso

É a minha resposta à maldição poética de Aristóteles, discípulo de Platão, que metamorfoseou a arte em receita de bolo. 

A arte não é uma fórmula pronta, e os artistas, continuamente, estão inquirindo sobre a limitação desta abordagem. Neste caso, eu sou quase Celíaco.

Como criador, decidi desenvolver um curso provocante, com terminologias novas e desafiantes, explorando a relação histórica entre teatro e fé cristã (ou a aversão à mesma).

Estuprado, por vezes, para catequizar povos e culturas, o Teatro sempre esteve atuando com a “cristandade” e o devaneio lisérgico.

Em minha vida, por exemplo, também estive envolvido com ele por meio da igreja. Como seria meditar o movimento contrário?

Mas hoje vejo que é necessário pensar para além disso. 

O curso também explora a questão do conservadorismo individual, que muitas vezes pode ser perigoso como um veneno letal.

Enquanto alguns se apegam ao conservadorismo ortodoxo, a nossa rota desafia a pensar fora da caixinha e romper com as vanguardas teatrais ultrapassadas.

Ainda assim, o Nada Ortodoxo é, de todo e qualquer tom, uma contradição eterna, porque busca ressignificar os mesmos fazeres teatrais arcaicos. 


Sejam bem-vindes a um mundo onde nada é sagrado e tudo é possível (e, quem sabe, profano).


Guilherme Stella

26/06/2023


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terça-feira, 14 de março de 2023

2023 e um texto sobre Maternidade & Rotina

Dois mil e vinte e três tem sido um ano de muitas viradas de chave. A começar pelo principal fato de que, logo na primeira semana do ano, eu fiz a minha mudança de casa. 

Foram cinco anos morando sozinho e sendo minha única companhia (salvo exceções), e hoje, novamente eu retorno pra casa da minha mãe. 


Essa questão em si, tem sido elucidada de forma muito flexionada. Não é confortável retornar casas no jogo da vida. 


Na minha cabeça jovial, retornar pra casa de origem e ambiente familiar é quase criminal. Se eu soubesse disso há três anos atrás, eu não sei se eu ficaria motivado. Mas sabe, percebo novas & novas coisas sobre isso. 


Primeiro que realmente, minha mãe tinha razão. Fumar na cama não faz o menor sentido. Eu queimava lençóis e edredons novos. Isso não compensava. 


Segundo que, nenhum chef de cozinha renomado supera os temperos simplórios da minha avó na cozinha. Eu não trocaria sua comida caricata por NENHUMA. 


Terceiro que, são novos momentos para se descobrir possibilidades com os moradores da minha casa. Hoje podemos falar de sexo sem tabus, afetos, polêmicas, religiosidade. Hoje eu tenho suficiente autonomia pra discutir com eles. 


Tudo bem que hoje eu sou profissional, trabalho num emprego sólido e sou muito bom no que faço. Mas de fato, poder perceber que sua família é, e sempre foi, uma boa companhia, tem sido importante.


Até a música do Zezé de Camargo e Luciano diz coisas sólidas. O passarinho cria asas e quer voar sim, mas nunca longe do ninho. Pelo menos este Condor que vos escreve. 


Sobre o trabalho.

Hoje divido meus dias com seis mulheres fortes e especiais. Muitas com opiniões contrárias às minhas, mas todas tem me mostrado uma coisa muito importante: Todas elas são apaixonadas pelos filhos e filhas que tem. E das 08hr diárias que passo com elas, eu ouço as histórias mais variadas, seja sobre estados de saúde, seja primeiras vezes de suas proles. Antes me incomodavam as repetidas seções de podcasts longos sobre as feridas de pele de seus pequenos, mas hoje percebo que minha mãe também faz o mesmo. 


Talvez eu não seja de fato a impressão exata de que minha mãe gostaria, mas percebo que ela se enche de orgulho, de alguma forma, do menino grande que eu me tornei. Obrigado meninas do trabalho por me mostrarem o que eu sempre custei acreditar. 


 E mãe, te amo. Me perdoa ser tão imperfeito. 


Guilherme Stella 

12/03/2023 

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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

Chanson D'Amour

Em meados de 2017, passei por uma fase de transição muito marcante. E, dessa vez, quero ser objetivo. Sem maiores alusões ou referências poéticas. Fase marcante. Ponto. 

Conheci pessoas & pessoas, coadjuvantes e figurantes (e até protagonistas). Uma delas, coadjuvante, uma vez, me mostrou um caderno que ela guardava com inúmeras coisas. Eu sempre fui muito materialista, mas em algum momento da adolescência, eu percebi que ter um "diário" soava infantil demais. Talvez por isso que, na falta de um, hoje eu tenha um blog. 

Daí conheci outras pessoas. Dessa vez figurantes. E vi que, por coincidência ou razões esotéricas (estou amando essa palavra ultimamente), muitas delas possuíam diário, ou caderneta, ou agenda, ou planner, etc etc. Daí eu resolvi que deveria ter um também. 

Fui até a papelaria que havia perto da minha antiga república universitária e comprei um pequeno caderno com estampa de patins e fundo azul marinho. Quatro e Cinquenta, se não me engano. Paguei em moedas. 

Cheguei em casa, num dia atípico onde minha tarde foi livre, me sentei no colchão no chão no meu quarto (a cama estava quebrada) e olhei pro caderno. Ok, agora faço parte da sociedade secreta do clube da caderneta, pensei. Mas me indaguei com respectivas questões: Cadê minhas inspirações metafóricas? Cadê a vontade de escrever poesias? Se eu for desenhar, o que eu vou desenhar? Qual o contexto? Com que finalidade? (Jovens adultos racionalizando coisas soa patético). 

E deixei por dias aquele pequeno caderno encostado entre minhas bitucas e problemas naquele quarto de oito metros quadrados. 

Outro dia, aleatoriamente, estava eu vivendo uma "bad" melodramática no arco fúnebre da existência e referências poéticas da juventude, e pensei: É chegada a hora. Acendi um famigerado cigarro e fui escrever uma carta para o "eu" do futuro. 

Com frases toscas e ensinamentos medíocres, a carta possuía um cunho moral e "aproveite os bons momentos, eles passam". Carpe Diem. Arcadismo essas horas? 

Na hora eu quase apaguei o cigarro na carta. Eu ainda dei o nome da carta de "A carta que deveria ter sido escrita com ketchup" e que baita coisa tosca é esse nome. Por mais que tenha uma razão, o nome é muito cafona. Advém da história de um protagonista. 

Meses depois eu abri o caderno em outro contexto e encontrei: 

"Querido eu do futuro.."

E fui ler. 

Ali sim percebi como as coisas são efêmeras. Foram pouco mais de cinco meses depois e eu já não sentia absolutamente nada do que estava escrito na carta. E isso não é papo de eu lírico não, é a mais pura das verdades. 

No fim das contas, criei o hábito de escrever cartas para eu ler no futuro. Com o tempo e muitas mudanças de casa, eu perdi o caderno de estampa de patins. Mas o hábito permanece. Seja num bloco de notas, seja num blog anônimo. 

Qualquer hora eu faça isso aqui, quem sabe. Por enquanto, sigo dando atenção para coadjuvantes e figurantes. 



p.s: O nome "Chanson D'Amour" pertence a uma música que, pra mim, combina com este texto. Nesse momento estou escrevendo do meu trabalho, onde foi palco (literalmente) da minha primeira peça de teatro. A música que sinalizava o fim da peça era essa, e hoje, acidentalmente, estou nostálgico. 

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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

Fragmento de Histórias do amor à primeira visita (2019)

O texto abaixo faz parte de uma antologia de textos clichês escrita por este eu lírico em um momento de aspirações esotéricas & narcóticos. As referências à obra "A Tempestade" de Shakespeare não são coincidência. Diz respeito à fase romântica do Ultrarromantismo no Brasil, fase marcada pelo egocentrismo e por forte tendência depressiva (referência: Brasil Escola). Especificamente sobre "A lira dos vinte anos" que foi escrita por Álvares de Azevedo, escritor de poesia byronista que morreu aos 21 anos de idade em 1852, autor cujo custo a acreditar que seja meu tataravô ou que, talvez quem sabe, eu seja uma possível reencarnação do mesmo (já que ele não deixou descendentes, foda-se os céticos), caso isso não fosse ambição e superestação demais. 

O texto abaixo também foi escrito quando eu possuía 19 anos (quase 20) e o encontrei no meu antigo notebook em frangalhos. Quis postá-lo inteiro, mas meu senso egoico precisou adaptá-lo. De antemão, adianto que Marcelo não existe. E o trocadilho de "visita" com o famigerado "Amor à primeira vista" é intencional e tem cunho erótico. Você decide.


Histórias do amor à primeira visita

Guilherme Stella (2019)


Sabe quando a história diz que a maçã caiu na cabeça de Isaac Newton em 1966? 

O Marcelo chegou como uma combustão para minhas novas teorias sobre tudo. 

Ele era mais novo, todavia, muito experiente.

Ele tinha um jeito característico de dançar que todo mundo sempre frisava.

A nossa ligação foi tão intensa que logo viramos amigos.

Eu percebia traços da minha personalidade que eram iguais os dele.

Ele era lindo e todo mundo reconhecia isso. Apaixonante.

Era doido por que a gente vivia sempre no extremo.

Se íamos beber, bebíamos até raiar o dia.

Eu não entendia como ele se sentia quanto a mim, mas eu sabia como eu me sentia quanto a ele.

A gente nunca mensura o tamanho do sentimento das pessoas. Droga.

Eu achava isso bom até.

Era divertido o fato de que ele também era enigmático.

Ele tinha referencias parecidas e eu adorava.

Eu poderia ficar dias consecutivos falando com ele sobre qualquer assunto que tudo ele dominava.

Eu achava que não, mas já havia projetado expectativa nele.

Assim como os outros.

No momento, ser visitado já nem era mais minha fixação.

Eu só queria a presença dele. Bem perto de mim.

Não tinha como não gostar dele.

É claro que eu me apaixonaria.

Ele não pensava muito sobre suas individualidades e eu o orientava  com o objetivo de me favorecer.

Talvez fosse Caliban falando, mas era tudo tão inocente e lindo que eu lhe mostrei minha face mais Ariel.

Era sincero.

Mesmo ele não mensurando o tamanho da minha tentação, não havia maldade da minha parte. Ou havia, mas quase insignificante.

Todo mundo também projetava na gente a ideia de casal perfeito. Era divertido.

Haviam os fãs, os muitos fãs e os que não se importavam mesmo.

Era uma incógnita e eu estava minimamente pronto para resolver mais essa equação.

Era um combustível para todo o caos que haviam me deixado.

Se eu falar que foi fácil, eu minto. Eu era territorialista, e qualquer pessoa que entrava no meu caminho eu buscava um meio sutil de cortar. Jovem né (Daquelas passadas de pano necessárias).

Mas não era por mal, era por insegurança. Foram tantos pulsos cortados ao longo das eras, que dessa vez eu precisava me reencontrar.

Eu me afundei em um vale sombrio de solidão que qualquer coisa que não me fizesse mais que bem, eu não ia cultivar.

E ele fazia.

Ele passou um final de semana comigo, mas nada nunca acontecia.

Eu tirei cartas para ele. E elas não foram tão claras. Continuei confuso.

As minhas energias vibravam na mesma frequência que as dele.

Nossos corpos não costumavam se tocar muito, mas eu sentia que esse momento chegaria.

Éramos dois jovenzinhos prontos para experienciar parte da utopia mental.

Eu já havia amadurecido, e todas as antigas dores viraram cicatrizes. Me ensinaram a lidar em partes com as confusões que meu ego inventa.

Eu sempre achei que, por mais que eu fosse mais velho, ele me ensinava muito mais do que o contrário.

Era gostoso ouvir ele falar sobre seus problemas joviais, me soava bem como um desabafo sincero que só pessoas muito próximas podem escutar.

E foi tão rápido.

Eu não queria perdê-lo na efemeridade que os fatos se sucedem.

Eu nunca entendi como o Marcelo me modificou.

Ele era os princípios, os meios e os fins.

Todos os outros foram marcantes também, mas ele foi especial.

Não era como se fossemos ficar juntos ou separados. Era como se estivéssemos predestinados a nos conhecer com tamanha rapidez temendo a rotatividade dos ciclos.

Se eu colocasse em termos contemporâneos, era um exato “bromance” que eu estava mais que envolvido.

Quando o conheci, ele me disse que gostava de garotas. Com o tempo, isso não foi mais uma certeza. Percebemos juntos que era impossível prever o dia de amanhã.

Eu era firme na ideia de que viver um relacionamento heterossexual não me apeteceria jamais, mas eu revisitava a ideia e buscava explorar, mesmo que minimamente (e segundas intenções). 

Ele disse que se esforçaria para me responder após dois dias inteiros juntos.

Eu esperei. Eu sempre esperava.

Ele tinha o tempo certo das respostas e mesmo que não fosse na hora, os nossos milhares de assuntos eram inacabáveis.

Eu questionei o meu ceticismo que as pessoas que me visitaram me confirmaram no passado.

Só podia ser coisa de outra vida ou não sei... Coincidência não era.

Eu aprendia coisas de filosofia, de música, de cinema, de rotina de trabalho. E sempre me fazia muito bem.

Eu o escutaria falar por todos os dias, eu acho. Repetidas Vezes. Seria meu mantra.

Ele era bom, não transparecia maldade.

A maldade vem da convivência, que é onde você encontra as três faces das pessoas. As fraquezas, as aparências que ela quer manter e como ela se porta com quem mantém laços afetivos mesmo. Alguma lenda explica isso.

Será se ele merecia parte dentro desses escritos? Será que eu poderia mudar minha concepção de uma madrugada de drogas para uma manhã de rotina cansativa?

Eu não sabia. Eu estava disposto. Essa é a palavra.

Os meus amigos mais próximos sabiam de como eu me sentia, mas jamais ninguém entenderia.

Se nem eu entendia como uma alma que vive em outra casca poderia entender?

Eu só sabia seguir o curso do rio.

Os acontecimentos eram recheados de informação e eu buscava lidar. Todo dia quase havia uma atualização romântica.

Alguns me falavam que era besteira e que eu estava alucinando, outros me apoiavam diretamente a seguir com esta teoria.

Eu precisava me mostrar interessante o suficiente. Eu busquei fazer isso. Eu embalei em uns momentos de puro êxtase. Com ele eu podia.

Acabou que viramos referência um do outro. Éramos fiéis escudeiros, e eu mantinha a postura.

E eu não sei como a história termina. [...]

(2019)

Sigo sem saber como a história termina, mas com novos apontamentos. Hoje, aos 23 anos, sei que os jovens não morrem de amor. Eles morrem pela ausência dele. E além disso, não se deve escrever com linguagem informal contemporânea e referenciar Shakespeare e Álvares de Azevedo no mesmo texto, mas tudo bem, Dear old Pink, eu te perdoo.  

Hoje as costas já doem e a disposição para joguinhos de sentimento se foi com a rotina aborrecida. Marcelo desapareceu por um tempo, mas o carinho ficou. Vira e mexe, ele aparece. Fui parcialmente visitado, mas ainda não como eu queria. Como eu disse, nessa história estapafúrdia eu não sei como termino. As constatações aqui pré-definidas criavam uma narrativa que SIM, só existia na minha cabeça de jovem inconsolável. A história muda, o capítulo acaba, os ciclos sim se encerram, mas novos Fins podem se (re)criar. Não havia Ariel ou Caliban que previsse. Afinal, hoje acho que ambos são um só. Me perdoem os clássicos.

Guilherme Stella, 2023.

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quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

In Sônia (minha terapeuta)

Era tarde da madrugada. Como de costume, eu revirava e revirava na cama. O cenário não mudava. A luz do banheiro continuava piscar. Lembrar de não trazer nenhum amigo ou amiga com epilepsia em casa, pensava. As vezes tinham mais ou menos bagunça no cômodo. A cama já tinha o meu formato afundado. Ela era de boa qualidade, mas foram tantos momentos com preguiça de levantar que ela moldou meu corpo. A depressão é mais eficaz que os produtos dentários superfaturados de dentistas. 

Nessa noite em específico eu pedi muito para a insônia não vir. Não venha, não venha. Coloquei barulho de chuva para dormir, sem resultado. Coloquei as músicas mais calmas… também sem resultado. Li alguns versos de Clarice. Tentei me concentrar na respiração. Sem resultado. 

Olhei o relógio: 03h da manhã. Fui lavar louça. As vezes, inconscientemente, eu deixava louça suja de propósito pra poder lavar nesses momentos. 

Eu tinha comprimidos pra dormir, mas a que custo? Com meus 20 e poucos anos eu evitava ao máximo ser viciado em qualquer coisa que não fosse a série The Office. Já vi tanta gente se perdendo.. 

Terminei a louça. Olhei no relógio e ainda eram 03 horas. 

Decidi ouvir um álbum de hip-hop anos 90. Eu sempre amei hip-hop dos anos 90. E não só dos anos 90. Eu não entendia bem inglês, mas quando eu entendia era uma micro satisfação pessoal de "puts eu sou mesmo muito bilíngue”. O álbum tinha em média 50 minutos. Era experimental, dei umas viajadas. Sempre quis ser rapper, na verdade. Eu entrei pro mercado financeiro, mas o meu sonho mais sincero era o da música. Eu seria feliz tocando piano, cantando em banda de pagode, banda de rock, metal, pop music. Eu seria feliz até cantando com um ukulele no metrô com um chapéu virado esperando algum mecenas. 

Olhei no relógio: 03 horas da manhã. 

Ok, o que mais eu posso fazer? Pensei. Tomei um banho gelado, por que protelei pra arrumar o chuveiro, fiz máscara de argila e comecei a hidratar meus cantinhos e dobrinhas. Cortei as unhas, pintei elas de preto. Tudo isso de roupão e toalha na cabeça, bem madame. 

Olhei no relógio e novamente eram 03 horas da manhã.

Guilherme Stella, 2022. 

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Cigarros e Morcegos

Sexta-feira. Hoje menti pra Martha do RH e realmente não fui trabalhar. Eu disse que peguei insolação e que a médica pediu repouso, mas especifiquei que se ela quisesse que eu fosse buscar um atestado, eu iria. Jogos psicológicos. Aprendi num podcast. 

E não fui trabalhar. Minha casa estava um completo pandemônio. As meias limpas misturadas com as sujas, os panos de chão com os de prato, e todo aquele cenário de moleque recém amadurecido com problema paternos harmonizava com o cheiro do lixo que eu esqueci de descer. 

Naquela época eu trabalhava muito e estudava médio. Eu fazia faculdade à noite e estava no quinto período de letras, e os trabalhos eram uns mais desestimulantes que os outros. Quis fazer letras para ver se eu entendia as fases românticas ou os versos satânicos, mas o que eu fazia era estudar latim e diagramação de palavras difíceis com termos mais complexos que os da biologia. Humanas também pode ser um saco. 

Naquela sexta-feira eu tinha que escrever um artigo e encaminhar para o meu professor até às 23:59. Qualquer minuto a mais desse horário era um décimo descontado da nota final. 

O artigo era bobo, mas eu estava esperando criar coragem pra começar. Bloqueios. Bloqueios. Bloqueios. Liguei o computador e acendi um cigarro. Vou fazer um café, pensei. Café com cigarro é a combinação mais eficaz para quem tem problemas protelados, criativos ou de intestino. 

Sentei na frente do computador e antes que eu começasse abrir a plataforma para escrever, algo bateu na minha janela. Era um pequeno morcego. Eu não tinha medo de morcegos mas achei estranho. Descartei ele no lixo do banheiro. 

Voltei a escrever e comecei a usar minhas qualidades pragmáticas para desenvolver essa merda de artigo. (Perdão o palavreado).

Depois de uma página e alguns cigarros fumados, eu percebi que haviam mais morcegos mortos na minha janela. Três ao todo. Quatro com o que eu havia descartado. Que coincidência, é a mesma quantidade de bitucas de cigarro no meu cinzeiro. Bobagem, pensei. 

Vez ou outra, eu parava pra olhar as pessoas felizes com suas taças de Gin tônica nos stories do Instagram, e quase nunca (contém sarcasmo) eu parava pra olhar minha vizinha seminua na janela. 

Mas sempre voltava a me concentrar. As horas iam passando, e o nervosismo exigia que eu fumasse mais cigarros. Ao todo no fim da noite haviam 20 morcegos mortos na minha janela. Aquele cheiro inexplicável de algo vivo-morto. 

Olhei a hora: 23:57. Pensei ufa. E enviei meu trabalho. Droga esqueci das referências, mas mando em um novo arquivo. 

Voltei a me incomodar com os morcegos e pensar se eu devia temer alguma experiência sobrenatural naquela madrugada. Isso é coisa de moleque. Esquece. 

Antes de dormir, escrevi uma mensagem pra zeladora do prédio pedindo se ela poderia recolher os morcegos da minha janela na manhã. Ela não visualizou. Já era meia noite. 

No outro dia pela manhã, desci com o lixo de três dias atrás. Coloquei tudo num grande saco de lixo de 100L para não ter que me encontrar com nada vivo que se mova dentro do lixo orgânico. Desculpem lixeiros, hoje não facilitei pra vocês. E ainda de brinde toma esse morceguinho infeliz. 

Antes de sair, peguei o meu cinzeiro e despejei todos os cigarros fumados na noite anterior dentro do lixo. Pra essa casa não ficar com mais cheiro de defumada, pensei. 

Desci com o lixo e fui até a padaria. Comprei um pão. Era sábado e hoje eu ia poder só existir e maratonar The Office. Recebo uma mensagem da zeladora:

“Querido, bom dia. Não sei o que aconteceu mas não há nenhum morcego na sua janela. Você já os descartou?”

E eu respondi que não. Mas como assim???? Eu vi eles. Todos. Eram 20 ao todo. Como num maço de cigarro. 20. Eu passei a noite confabulando sobre isso. Eu não estou doido. Eu até joguei um no lixo do banheiro, que eu, inclusive, peguei com papel higiênico na mão. 

Engasguei seco e agradeci. Logo depois, contei tudo pro meu grupo com três amigos do whatsapp enquanto fazia meu ovo mexido para comer com pão. E vi minha vizinha da frente, a vizinha seminua, que é como eu a chamo carinhosamente, fumando um cigarro. Ela estava com um pijama bem bonito. Tipo cena de filme, a pessoa tá sempre preparada para ser filmada. Já acorda com os dentes limpos, as orquídeas dos vasos mais coloridas, os pelos dos pets mais penteados, etc. Da até para se ouvir um MPB contemporâneo de trilha sonora. Me distraio um pouco com os ovos queimando e ouço um grito. Ela se assustou com alguma coisa. 

Era um morcego que havia batido na janela dela. Ela jogou a bituca na rua (sujeito a multa) e voltou pra dentro. 

Eu vou parar de fumar agora.

Guilherme Stella, 2022. 

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