Soam lindo e poético as lembranças da epigênese da infância, de quando nós nos embebedávamos de leite com chocolate e pão com manteiga, assistindo às melhores produções cinematográficas animadas numa manhã qualquer (um ressalve para As Trigêmeas, um desenho que eu amava).
À tarde, escola, matemática, fração, descobrimento do Brasil, folclore, verbo to be e ciências. Fim de tarde era chegada a hora. A hora de brincar na rua. Com os amigos do bairro, do condomínio, da vila, ou os irmãos e primos, sendo estes para famílias grandes.
Mas eu não tô aqui para escrever palavras bonitas. Hoje eu senti falta da nostalgia das noites de putaria.
Do primeiro cigarro que eu roubei escondido do meu padrasto (porque isso soaria muito adolescente no auge dos meus 14 anos), ao primeiro maço de L.A. de cereja comprado na venda em que meu melhor amigo fazia diária e fortemente fumado, entre tragadas, tossidas e pressões baixas.
Da primeira vez em que masquei fumo. E que achava aquilo jovial demais. Inclusive foi com a Bia (uma amiga especial que deixei de citar no texto sobre as sereias do vôlei). É, era a droga dos caras do agro. O mais perto que eu cheguei do agro foi quando a Beyoncé lançou um álbum country.
Do primeiro raio. E me perdoem os deuses, de qualquer mitologia, sobre a atribuição de um filete de algo tão nocivo ser metaforizado como um raio. Escondido no banheiro da casa de um conhecido. O estresse. O desejo por mais.
Do primeiro PT. E não do primeiro voto no Partido dos Trabalhadores. Da primeira perca total. Quando eu desafiei a virar o dobro de doses que qualquer um tomasse. Um infeliz que morava em Lobato e só fingia ser meu amigo pra tentar passar o pau nas minhas amigas tomou 08. Então eu tomei 16.
Na época, eu havia assistido ao filme “Aos Treze” e a cena de início do filme mostra duas adolescentes tão chapadas que fica uma pedindo pra outra uma palmada na cara. Resultado: eu pensei que seria uma boa ideia, enquanto alcoolizado, pedir que me batessem na cara. Eu realmente merecia apanhar.
AI NÃO. A primeira ressaca. E sinto pelo meu fígado e a minha esteatose hepática, mas eu, quase nunca, tive ressaca de álcool. Com certeza, daí o gênio pro alcoolismo. A ressaca moral. A pior de todas. Tive dessas na faixa dos milhões.
A primeira maconha foi interessante. E eu juro que minha ideia não é fazer um glossário de primeiras vezes com drogas para que alguém algum dia, se por acaso eu enlouquecer, justifiquem o motivo. É que a nostalgia tem me espancado.
A primeira maconha derrubou minhas pálpebras e me fez rir como se estivessem passando um espanador de penas de ganso em mim. Felizmente, há um registro desse dia.
A primeira vez não foi melhor que o primeiro beijo, mas foi poética, de certa forma. LED vermelho, Frank Ocean no som, frio de agosto, óleo de coco. O gosto de álcool na boca com a sensação pura da paixão pela primeira vez. O final foi traumático, mas agradeço ao moço que me desvirginou por ter me deixado sofrer logo toda a ardência da queimadura da paixão. A música do Frank Ocean eu ainda escuto. E virou minha trilha sonora de quase todas as minhas transas. Eu gostava muito da música e, pra não associar ao moço, eu fiz virar uma tradição.
Gozado. Literalmente.
Não vou pagar de Rita Lee e nem de Bolsonaro, ou seja, nem de bruxa amarela mais crazy the life, ou de ditador fascista e moralista, mas eu realmente vivi muito os 20 anos. Teve o primeiro LSD, o primeiro MDMA, o primeiro loló, o primeiro bico verde, a primeira suruba, o primeiro namoro, a primeira traição, o primeiro emprego, a primeira briga física, a primeira desilusão, a primeira faculdade, a primeira mulher que eu peguei, a primeira mulher que eu peguei como quem pega mulher, a primeira recaída, a segunda, a terceira, a décima sexta.
Tantas primeiras vezes. E eu sinto falta daquele Guilherme imprudente, que se sentia num filme do Almodóvar e, ao mesmo tempo, numa micareta de interior ouvindo Alcione numa jukebox enquanto senhores apostam suas casas em baralho.
Hoje eu sou uma nova versão minha de primeira vez.
E eu também estou apaixonado por essa.
Talvez eu devesse ouvir aquela do Frank Ocean hoje antes de dormir, ou me lembrar de tomar achocolatado amanhã pela manhã enquanto assisto As Trigêmeas.
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