quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Fora de Órbita

Minha mãe pariu um foguete.

E não por eu ser especial demais e nem pelo tamanho da dilação vulvar da pobrezinha da minha Deusa-Mãe, com seu agô.

Signo de ar, avoado e sempre adoentado mentalmente. Troca de medicação, troca de abordagem de terapia, troca de psiquiatra. Repetidas doses de medicação de curto período da alta plasmática e sempre em demasia.

Filho de Oxum, a sereia da água doce, que leva, com sua sabedoria ancestral, através da correnteza do rio, que às vezes é intensa, toda a dor. Ora yê yê ô! Mas, ao mesmo tempo, me faz ter facilidade ingênua em derramar lágrimas em quase toda situação cotidiana.

Meu pai Xangô, Kaô Kabecilê!, me traz o senso de justiça com que eu nasci, efervescente. Me incomoda o fato de kiumba encarnado se dando bem enquanto eu fico vulnerável por qualquer mera mensagem ofensiva ou crítica não solicitada.

De ancestral, Ogum, o orixá arrependido de ter ceifado toda uma tribo. Do ferro, da guerra. E eu sempre pulando de guerra em guerra.

Artista. Tentando replicar os incômodos cerebrais e incestuosos (dos segmentos da arte) que me custam os fios de cabelo branco, que já ameaçam aparecer aos 26, para seguir no meu ofício.

Apaixonado. Não por homens. Aliás, por vezes, sim. Mas isso é papo para outra hora. Apaixonado em tudo que se propõe, mesmo que isso me custe cartelas de quetiapina e noites maldormidas.

Explosivo. Imprudente. Em mania. Sempre odiando o tédio como o meu maior inimigo e travando guerras sinistras com este. Por vezes, me embriagando de álcool barato, às vezes me dopando (dos já citados) comprimidos. Ademais, as outras drogas eu renunciei.

Pânico. Pré e pós-pandemia foram momentos tempestuosos. Eu achava que fosse morrer a cada segundo. Por vezes, eu cheguei perto. Um Marinheiro me disse isso uma vez.

Gay. E, por mais que minha personalidade seja meu ponto forte de qualidade, é inegável o quanto ainda a homofobia nos acomete numa quarta-feira, às 14h36min da tarde, e você fica impotente, percebendo que a bolha universitária na qual foi inserido, de que o mundo é colorido, que as pessoas trans são respeitadas, que os movimentos sociais são ouvidos… é, quase, uma luta perdida.

Mortos. Os mortos que passaram pela minha jornada me ensinaram muito. Sempre cito a tia Fran, que, de onde estiver, deve estar desanimada com a minha falta de fé em mim mesmo, mas que foi expoente em me fazer seguir o meu sonho jovial aos dezesseis anos. Te amo, Tia Fran! Tenho tentado ser, um pouquinho do que você foi pra mim, pra Nicole. Não sei se tenho conseguido, mas eu tenho me esforçado.

Minha madrinha. Lourdes. Cabeleireira que sempre me deixou pintar as unhas e tirava com acetona antes que eu voltasse pra casa, para que meu pai não fosse grotesco. Sinto sua falta.

Meu avô paterno. Queria que meu cérebro me permitisse ter alguma lembrança do senhor. Mas sei que a sua morte, pelo coração, me ensina a trabalhar (e zelar) melhor pelo meu.

À minha mãe, eu peço desculpa. Desculpa por sempre estar vivendo nos 440, nos 220 e nos 110. Na inércia e a 200 km/h. Na depressão e na mania. Na arrumação em excesso e na bagunça. Na ausência de fome (que dá halitose, fica a dica) e na compulsão alimentar. Na via sacra e na calunga pequena. Nos extremos e nos mínimos.

Eu não queria ser um foguete. Eu viveria muito melhor sendo apenas um aviãozinho de papel. Desses que a gente faz na escola e se acha o próprio Santos Dumont. Mas acho que essas escolhas não vêm com a gente. Cabe a nós tentar levantar voo quando for pra cair e haver uma tragédia, ou saber o momento certo de pousar. E fora de órbita eu já vivo. O vácuo do espaço não ia me fazer bem, a gente sabe. Talvez eu não seja um foguete, eu mesmo tenho medo de altura. Talvez eu seja um dos planetinhas do Pequeno Príncipe em completa desarmonia. Mas os planetas se alinham. Não lembro tanto de astronomia, mas eu sei que se alinham de vez em quando. E, quando todos estiverem alinhados, eu volto aqui para contar a novidade.

Luz para os seres de luz e sombra pra quem me emana sombra.

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quinta-feira, 16 de julho de 2026

Presságios Mudam

Num dia qualquer de algum ano qualquer, em meados dos anos 2010, eu tive um pseudo-presságio. Eu lembro nitidamente, porque tentei por várias vezes materializar aquela cena que eu “pressagiei”.

No dia em questão, eu estava em casa, lendo algum dos livros de sagas que, nos primórdios dos anos 10, eram virais entre os jovens, e já era tarde da madrugada. Foi quando veio o meu presságio.

Era quase como uma visão do futuro. Era eu, sentado numa escrivaninha, frente a uma imensidão de luzes acesas em apartamentos, e, ao fundo, tocava especificamente a música Vagalumes Cegos, do Cícero.

Tenho, ultimamente, percebido que meus escritos sempre soam como aqueles vídeos caricatos de propagandas de merchandising da Manu Gavassi ou narrações de peças de teatro muito seriamente contraditórias, e eu queria mudar isso. Portanto, ao longo do texto, vou acrescentando frases desconexas para quebrar o gelo cênico.

Em 2017, eu saí do colo da minha mãe e fui descobrir, em conjunto com mais dois marmanjos, que louça não se lava sozinha. Fizemos o êxodo da cidade do interior para a pseudo cidade grande e metrópole mais próxima daqui.

É engraçado pensar que hoje sou iniciado na Umbanda e, na época, eu adorava usar drogas para falar sobre espiritualidade. Um dia eu até acendi uma vela para “Preto Velho” me ajudar na dor de garganta que eu sentia. Na época, não entendia o peso disso. Mas, de fato, a dor de garganta passou.

Os marmanjos eram tão poodles de madame de suas mães quanto eu. A diferença é que eu tinha pedigree. E, nessa redoma de fumaça de narguilé e bigatos no lixo, eu me aventurava fazendo ménage à trois com a Mari e a Jhuana.

Numa certa noite, me embebedando da erva, me toquei do presságio. Levantei e olhei para a janela. Coloquei a música do Cícero no meu notebook (que, dias depois, quebrou por negligência) e fui até a janela. Não havia escrivaninha. Não havia a magia do presságio.

Comecei a perceber que eu coloquei o sarrafo lá em cima quando tive a visão. A escrivaninha era algo meio caricato do que eu via no Tumblr em 2014. A vista das janelas era incômoda, inclusive. Várias luzes acesas eram sinal de muita gente. E eu, tendo a visão de muitas pessoas, me incomodava. A música do Cícero. Me perdoe o mesmo, mas já me enjoava. Pelo menos aos dezessete anos eu já não era tão performático como aos 14, quando fingia gostar de Beatles.

Percebi que não era ali a minha visão. A maconha encerrou o seu trajeto e o fumo virou mela de haxixe no cinzeiro. Vamos dormir.

Tive brigas intensas com os rapazes que moravam comigo. Não os culpo. Eu era insuportável. Continuo sendo. Mas menos.

Uma vez, minha amiga tinha acabado de tentar cometer suicídio, e eu estava com ela no hospital, esperando que algum médico psiquiatra de plantão aplicasse diazepam logo em sua veia, e logo me veio uma mensagem. Fui expulso do apartamento em que eu morava. Ao final do contrato, eu estaria fora.

Sou insuportável. Eu sabia. Mas não era momento para aquilo. Minha amiga de atitude suicida era vegetariana. Naquela noite, dopada de Diazepam e Dramin, ela comeu um X-Bacon.

Me mudei meses depois. Fui morar na Clementina Basseto, nº 300, apartamento 206. Era uma rua sem saída e paralela ao teatro em que eu estudava. Aqui será o cenário do meu presságio, pensava.

Então, drenando a minha visão de quase dez anos antes, eu me droguei de maconha, vinho e comprimidos. Talvez de cogumelos mágicos também, não me lembro (foi uma época tempestuosa). Olhei pela janela.

O cenário era mais como antes eu imaginava. Tinha as janelas desconfortáveis. A luz dos apartamentos. A escrivaninha não tinha, mas, poxa… presságios mudam. A luz da lua sendo um spot de luz quente. Ok. Celular na mão. Tempos de Pipa. Vagalumes Cegos. Cícero. Nada.

Eu não senti nada.

Estou certo de que senti algo, afinal eu estava drogado. Mas nada sobre o presságio. Essa época é conturbada, e eu receio que não lembre de tanta coisa. Afinal, o uso de substâncias era intenso, as amizades, os amores, as traições, os sexos, as aulas de teatro. Tudo era muito intenso. Acho que meu cérebro me drenou de muita coisa e guardou nas gavetas do meu inconsciente. Valeu, cérebro. Não é sempre que você é um cara massa, mas, nesse caso, você foi top 1.

O presságio era uma mentira. Comecei a desconfiar, de forma lúgubre, que talvez fosse a visão do dia em que eu fosse morrer.

É claro, eu iria morrer com aquela cena. Uma janela. Luzes e, enfim, vocês já sabem, me poupem caracteres. Seria o dia da minha morte.

No fim, eu estava desenvolvendo síndrome do pânico. Tudo era sobre morte. Escrevi alguma peça sobre isso. Eu acho. Não lembro. Como eu disse, era tempestuoso.

Anos depois se passaram, e eu percebi que, na verdade, o presságio era só sobre o momento em que eu pensei nele. A cena materializada. O poder de criar com a mente. A nuance pequena dos microdetalhes.

Não posso dizer que foi só sobre isso, porque logo após eu resolvi criar a tradição. E agora, sempre que lembro desse fato, eu tento reproduzir a cena. Seja olhando para a parede, seja no trabalho, seja em algum lugar de vista noturna e Spotify de fácil acesso.

Agora tudo isso se torna um pequeno texto. E a tradução se expande. Agora eu pedi para a inteligência artificial criar uma arte sobre isso. Estou certo de que quem precisa de diazepam hoje sou eu. Drogas não quero. Não lembro. Foi muito tempestuoso.

Depois que escrevi tudo isso, pedi para uma inteligência artificial criar uma imagem daquela cena. A escrivaninha. A janela. Os apartamentos. Os vagalumes. O Cícero tocando ao fundo. Ela fez.

Aí eu tive uma ideia pior.

Pedi para ela terminar esse texto.

Então termina esse texto para mim, IA.

Sem mancada.

Não vou te dar prompt nenhum.

Você termina.

Infelizmente, depois de quinze anos perseguindo um presságio, o meu destino era acabar terceirizando o final dele para um algoritmo.

Acho que isso diz mais sobre 2026 do que sobre mim.

Ou talvez diga justamente sobre mim.

Enfim.

Presságios mudam.


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sábado, 2 de maio de 2026

As sereias do vôlei e algumas figuras de linguagem sobre o céu

Hoje amanheço de forma desproporcional. Aos cantos com um emblema de cansaço da semana que passa e um sentimento amistoso de esperança pela que se aproxima. 

Aos fãs da série da minha vida eu receio, de forma genuína, a falta de episódios marcantes que essa season está tendo. Algumas atualizações básicas são: estou repetindo as dosagens de mau-caratismo no que tange à relacionamentos fracassados, de estômago embrulhado pelas amizades quebradas que Exu tem tirado do meu caminho, e cada vez mais espiritualizado. 

A única coisa que não muda é o amor pelas minhas sereias do vôlei. Decidi chamar assim por que essa semana eu assisti a um monólogo que escrevi em meados de 2021 e lembrei do termo, mas em resumo e palavras-chave: amigas. 

Quero destacar Polyana, a minha pra sempre namoradinha (que meu avô custa acreditar que não se casou comigo), que agora gesta em seu pequeno forninho um novo ser: a pequena Ísis. A única referência que eu tinha do nome é a deusa do arco-íris, da mitologia egípcia, mas agora esse nome se transmuta para um pequeno amontoado de moléculas que está no “forninho” da minha amiga Polyana. Obrigado pela graça de “assobrinhar”, Poly. Meu amor por você duplicou. 

Seguindo nessa fantasia, é cômico ver como as minhas amigas estão cada uma em um local do Globo. 

Agora: Patrícia. A minha amiga das trincheiras, dos sorrisos e crises depressivas, que está esbanjando toda sua personalidade efervescente na Europa. Sua cia me abastece. O meu riso mais sincero é com você. 

Carol. A pequenuxa menina das geleias minúsculas e dos brownies cheios de ensinamentos. Te sinto perto mesmo que te tenho longe. Os sábios conhecimentos e as conversas contundentes sobre qualquer coisa que mais-ninguém-liga são como adesivos com glitter no mapa mundi da minha vida. 

Karina. Guilherme você busca “Karinas” em todas as suas amigas, minha terapeuta me disse. E também, quem pudera. A Karina é perfeita. Ela é uma das poucas que faz eu me calar mesmo que eu esteja certo. Sábia como um pequeno João-de-Barro. Sinto sua falta. 

Larissa. Feliz em dizer que essa se mantém intacta no museu da minha história. Aparece sempre com uma nova estória e seu jeito enfadonho e expansivo me elucida a arte de amar. Como eu amo te amar, amiga. 

Helena. Como eu já disse uma vez, eu também faria uma guerra de Tróia só por conta dela. Aparece a cada solstício, como sol da meia noite, mas ainda assim, carrega sua grande imponência lunar sobre minhas marés. 

Inez. Diariamente sendo evocada pelas minhas angústias joviais e seus ensinamentos de avó. Como Oxalá foi generoso em te botar em minha vida. Mal sabia o quanto eu estava precisando desse carinho maternal. Me desculpe as desmedidas profissionais, é que gosto de esbarrar em seus ensinamentos, e estes só vem como puxão de orelha… devo ser masoquista, sei lá. 

Nayara. Minha amiga de mais tempo. Essa sereia do vôlei viu todas as minhas fases: minguante, crescente, cheia e nova. E eu, pude, felizmente, acompanhar as dela. O mar é o seu lugar e eu sou Zé da Praia. Não canso de te admirar. 

Marina. Essa sereia do vôlei é especial, pois segura um rojão como ninguém. Brilhante! Ela é quem me excita profissionalmente e me busca nos lugares mais profundos de mim mesmo. Talvez ela não saiba o quanto eu a amo e admiro. Assisti-la é como um filme de comédia besteirol e fábulas de Esopo. Tem a parte caricata e o ensinamento preciso. Amo você. 

Vitória. Não estive tão equivocado quando, na quarta-serie, por ela eu fui apaixonado. E esta é quem dá o grande significado de sereias do vôlei (visto que seu pai que me ensinou). Te ver realizar seus sonhos se tornou o meu sonho. 

Anna Júlia. Posso passar eras e eras sem me trombar com esta e o carinho se mantém intacto. As mesmas piadas (e que maravilha, pois eu sempre vou rir do mesmo jeito), as mesmas músicas da Britney, e o mesmo amor da primeira vez que te abordei na fila do Tribos. 

Natalia. O real motivo de eu acreditar copiosamente que os opostos se atraem. Se minha “rainha” não fosse tão diferente de mim, talvez eu não fosse tão apaixonado pela nossa amizade. Seus ensinamentos são precisos, ainda que incisivos. Custo acreditar que você não tem 80 anos e me tem como uma avó que cuida do neto bagunceiro. Obrigado por tanto. 

Nicole. O amor que pereceu da perca de uma grande roseira. É engraçado ver os dias passando e ver você amadurecendo, criando certas consciências e se tornando uma mulher como a que te criou. Você é luz. E um exemplo de sabedoria e resiliência. 

Carol. Felizes os consanguíneos que, pela ordem natural, se tornam amigos. Não foste só os jantares de família e os almoços de aniversário, e tampouco os velórios compartilhados. São os momentos de curva. Quando o sol já não se nasce com tamanha resplandecência, e as nuvens cobrem a sua luz. Daí percebo que dádiva é poder contar com um consanguíneo. 

Sarah. Nada atualmente a declarar. Muitos carácteres foram usados nesse blog sobre essa fase lunar. 

Mariana. A sommelier dos bons vinhos e boas músicas. A minha “você é a música em mim”, que estabelece conexão mesmo que longe. Das noites do pijama as noites em que precisou dormir comigo para aferição de pressão. Das caudas de sereias com lençol aos lençóis entranhados de êmese estomacal. Te carrego comigo. 

Beatriz. Os espinhos refletem a grandiosidade da rosa que carrega. São essenciais as discussões, e o saber transladado. Quanto mais aprendo, mais saio da zona de conforto e percebo que você é essencial. 

Mharia Eduarda. Te ver crescer é, também, uma sabedoria. Amo seus movimentos e a forma como você me tem. Que seu relacionamento, abençoado por mim, fique frutífero para sempre. E o nosso de amizade também. 

Layla. Agô pra falar. Sentimento recente. A mais nova a entrar no time. Amo sua sabedoria e o carinho que você tem em me ensinar as mitologias dos Orixás. Te desejo muito axé e que percorra essa caminhada ao meu lado até que os nossos guias permitam. Obrigado por me iluminar. 

E claro. Existem muitas outras sereias do vôlei que eu poderia citar aqui de forma demasiada, por que, felizmente, aos cantos com emblema de cansaço, eu ainda possuo todas essas pessoas no meu time. Não pudera eu ser tão recheado de boas pessoas. Quando a maré baixar, quero voltar aqui e saber que essas fases lunar são os meus eclipses, crepúsculos e lusco-fusco. Eu amo vocês. Por mais clichê que isso soe. Eu nunca prometi não ser, afinal, estou na minha fase crescente. 

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terça-feira, 29 de abril de 2025

Hoje eu tive um pesadelo

Hoje eu tive um pesadelo. 

Hoje eu tive um pesadelo e não posso acreditar em tamanho descaso de meu inconsciente em deixar que o meu organismo apenas estivesse tentando me acordar pelo mau jeito de dormir ou a falta de oxigenação no cérebro. 

Hoje eu tive um pesadelo e, nessa pesadelo, o cenário eu conhecia. Era vermelho, igual aos rios de sangue do inferno de Dante. Entre o primeiro ciclo de sono e o segundo, eu “pesadelei” (visto que pesadelo é antônimo de sonho, do verbo "sonhar") com alguém de quem eu nem lembrava mais. Com uma pessoa que passou e foi embora. Pessoa que passou. Nada de caso pensado, pois eu sequer lembro de ter citado o nome do mesmo na tarde de ontem, enquanto reforçava a camada de gordura visceral de meu fígado com álcool barato. No sonho o contexto era sexual. Não de um jeito feliz como os contos eróticos promovem ser. Aliás, deixo aqui todo o questionamento da semântica da frase “eu sonhei sobre sexo com este alguém” e faço meus questionamentos totalmente desligados das regras gramaticais. Talvez, os rios de sangue do inferno tenham acordado Incubus e este tenha prestado atenção em minha vulnerabilidade insustentável durante a madrugada de pré-domingo. Afinal, domingo é o dia que o Criador descansou, e o demônio quis testar minha sanidade na ressaca do álcool reparador de rejunte hepático. Boa tentativa, Incubus, este não foi possível de me acordar. Eu já nem lembro mais dele. 

Hoje eu tive um pesadelo, e nele, entre o segundo e o terceiro ciclo de sono, me veio como enredo a minha família. Já que o primeiro ciclo não havia feito diferença alguma, eles, dessa vez, apelaram. Era sobre Laura, a minha afilhada. Foi eu que a segurei no colo enquanto o padre jogava água benta sobre seu orí quando era recém-nascida. No sonho, alguma crueldade. Na vida real, apenas mais esse deglute de cristianismo de tom estuprador, onde ela não teve escolha sobre ser batizada, afinal a mesma ainda não identificava a diferença entre o dedo da mãe e o bico do peito. Aqui eu acordei. Virei pro lado. Deve ser o lanche que eu comi afogando as mágoas ontem, pensei, indigesto. Tomei água, reforcei o ar condicionado e garanti que a televisão continuasse ligada naquela canal gratuito que só passa promoções de joias na madrugada. Tudo certo. Vamos ao próximo ciclo. 

Entre o terceiro e quarto sono, hoje eu tive um pesadelo. Este era de tom profissional, se não fosse minha mera insignificância errante ao mesclar vida pessoal x profissional. Eu estava em um evento. Desses que eu promovo em parceria com a repartição pública na qual faço oito horas por dia e paga minhas contas todo fim de mês. O evento poderia ser um sonho, visto que estava organizado, não fosse pela aparição de Sarah nele. Ela possuía um aspecto estranho. E dela eu comentei ontem. Ontem, anteontem, e antes de anteontem. Mês passado. Ano passado. E em meados de 2023, quando tomei nota da minha dor e reparti isso com este blog mofado. Ela ria e eu tentava pedir para que o tom da conversa não fosse risonho. Eu precisava ouví-la e ela precisava falar. Esta é uma que vive sempre nos nove círculos de Dante. Me comuniquei de maneira errônea e logo minha mãe, coadjuvante no sonho, não deixou que eu me aproximasse dela. Sim, aos vinte e cinco anos minha mãe ainda decide com quem eu devo ou não andar. Nem sempre atendo seu pedido, assumo, porém no sonho eu bati o pé. Agora, perto do meio dia de domingo, eu já não lembro o que conversamos. Afinal, ela sempre me visita em pesadelos. Mais do que na vida real. Mas como eu disse anteriormente, esse assunto já foi pauta deste eu-lírico. E por volta do meio dia eu me encontro na boemia de escrever este texto sobre pesadelos tendo me dopado de Venlax, Alprazolam, Cafeína e Nicotina. Que baita de um hipócrita eu sou. Os demônios da madrugada aqui me acordaram novamente, e agora tenho sequelas de pensamento, mas acho que foi tempo de abrir o celular e ver a timeline de alguma rede social. 

Hoje eu tive um pesadelo, e depois de ter sonhado com o meu ex do passado, com a minha afilhada, meu trabalho e minha amiga Sarah, não havia mais nada de que meu inconsciente podia criar. Um último suspiro de horror, receio. Era uma festa. E eu estava lá embalado de bebida e de outras substâncias. Houve um tiro. Ninguém sabia da onde vinha e quem era a vítima. Este foi o enredo. Eu procurando desnorteadamente quem havia sido baleado. No fim, não encontrei, mas esse pesadelo tem explicação nas muitas informações que recebo diariamente de crimes não ficcionais em qualquer lugar midiático. Também não me assustou o suficiente. Mas acordei, agora definitivamente. 

Hoje eu tive um pesadelo, mas na noite anterior eu tive um sonho prazeroso demais. Fui dormir na ânsia carnal de um deleite sexual e não experimental. Cômodo mesmo. O mais do mesmo. E quando sonhei, o rapaz que estava comigo era alguém com quem já me envolvi anteriormente. Neste blog não atribuímos juízo de valor a nada. O “palavras bonitas” é um paradoxo, pois eu posso dizer todas as palavras mais esdrúxulas e podres que combinadas em frases pode soar como algo poético. Só não vão me ver escrevendo a palavra “garfo” que é a que eu mais odeio da língua portuguesa. Aliás, por sinal, é a minha favorita. Um sonho quente, cheio de envolvimento carnal e febriculoso. 

Hoje eu tive um pesadelo, mas ontem, quem teve foi o marido da minha mãe, que “pesadelou” sobre levar um choque e acordou a casa toda. 

Hoje eu tive um pesadelo e espero que todos os ciclos do inferno de Dante tenham se encerrado enquanto eu dormia. 

Hoje eu tive um pesadelo, mas hoje também, quero encontrar os meus cristais Ônix, que dizem as bruxas que afastam pesadelos. Eu nunca mais tomei Trazodona, por exemplo. 

Hoje eu tive um pesadelo e espero que na próxima noite eu não tenha. 

Hoje eu tive um pesadelo, mas.. eu sempre tenho.

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quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

Minha breve e romântica história de amor com livros

Sou filho de um radialista locutor esportivo aposentado e uma pedagoga letrista, excelente em alfabetização. E pela minha liberdade poética eu afirmo que isso não é mentira. 

Meu pai, antes de se enamorar pelos encantos da jovem de cabelos cacheados e sardas evidentes, narrava os jogos de futebol nacionais numa rádio popular na minha pequena cidade do interior. Até hoje, quando, muito raramente, eu e ele temos um momento de ócio conjunto, ele faz narrações improvisadas que deixaria qualquer Galvão Bueno desempregado. Sem modéstia, o cara é foda. 

Daí veio a jovem professora, que se deixou levar pelas cantadas caretas do Don Juan de olhos puxados mas sem ascendência amarela, que educou e letrou pelo menos quatro ou cinco gerações antes da minha.

Um radialista e uma professora. Como eles ficaram tão surpresos quando eu decidi me tornar artista? 

Eu era uma criança enjoada, assumo. Feijão? Nem pensar. Escola particular, Roupas da Tigor T Tigre, Jogos de Tabuleiro, e por aí vai. Mas ainda que enjoada, eu sempre me vendia fácil quando ganhava livros. 

Antigamente, haviam aquelas coleções de livros curtos com contos de fadas que vinham em uma caixa de papelão ultra colorida e chamativa, e eu sempre quis todas que esses vendedores-de-livros-em-caixa-de-papelão vendiam frente às escolas. Horário de pico, eles eram espertos. Qualquer criança ficava deslumbrada com aquelas cores e a fantasia das histórias. 

Assumo que nos primórdios eu brincava mais com a caixa do que com os próprios livros, até que minha mãe leu “Peter Pan” pra eu dormir. Obviamente aquela noite o sono não veio, pois esperei entusiasmado na janela de casa o pequeno menino que não queria crescer para me levar à Terra do Nunca (onde eu ia encontrar as sereias). Há uma memória falsa ou um sonho lúcido de que uma noite eu vi a sombra dele na janela. Não quero racionalizar sobre, vamos acreditar na fantasia. 

Depois, veio a adolescência e com ela, a vontade de ser intelectualmente aceito. Sou grato pelos meus pais terem trepado nos anos 90, pois assim, eu vivi os anos 10 muito bem recheado de distopias fantasiosas e romances clichês. Comecei por Jogos Vorazes e fui caminhando por todas as trilogias da época, até que encontrei meu primeiro grande amor: John Green. 

Ah, John Green! Ele inventava metáforas onde, em minha concepção de adolescente sonhador, eram as mais efervescentes e criativas de toda a história da literatura. Como a do cigarro de Augustus Waters de “A Culpa é das Estrelas”. Muito lindo mesmo. É fato que eu roubei cigarros da carteira do meu padrasto para viver a aventura jovial completa e hoje sou um completo tabagista infeliz, porém John Green: você foi o cara. 

A adolescência foi se esvaindo, os livros por prazer se tornaram as obrigações de vestibular, e eu, nunca reclamei. Eu adoro os clássicos. Gregório, José de Alencar, Machado de Assis, Gonçalves Dias, Fagundes Varela, Álvares de Azevedo, Aluísio de Azevedo, Raul Pompeia, Augusto dos Anjos, e por aí vai. Me diverti com eles. 

Mas as histórias vão se tornando cada vez mais reais, e foi em meados dessa época que fui provocado por uma professora de ensino médio que me desafiou a fazer silêncio por sete aulas suas, fato este que me fez prestar atenção quando a mesma falava sobre o Trovadorismo. Me apaixonei. As notas despencaram em Literatura de forma desproporcional com as Exatas que eu sempre reprovei e fui passado pelo conselho de classe (alerta de segredo secreto). 

Na faculdade eu li pouco. O lisérgico e a sexualidade aflorada, combinados com falsas desilusões e arte pulverizada me fizeram um não-leitor. Bertold Brecht? Não li (não vou nem confirmar se o nome do mesmo está certo). Antoan Artaud, Augusto Boal, Willian Shakespeare, Vitor Hugo, Nelson Rodrigues, (e eu nem lembro tantas referências) eu não li. Me perdoem os meus alunos. Posteriormente eu retomei grande parte do conhecimento que me foi passado (já me retificando).

E o prazer de ler nunca mais foi o mesmo. 


Tempo se passou e hoje sou sobrevivente de uma pandemia. Muitos dos livros de distopia que li na adolescência começavam meio neste tom. Mas é a real. Vivi durante uma pandemia mundial onde a - maioria - das pessoas se privaram do contato humano e ficaram reclusas em suas casas. Época de descobrir novos hobbies. Eu tive o privilégio de ficar em casa, então estou falando deste lugar, JAMAIS em demérito de outras pessoas. E foi quando eu decidi retomar minha grande coleção de livros. Trombei em “Me chame pelo seu nome” e fiquei encantado em ler um romance homoerótico passado nas paisagens lindas da Itália. Baixei o filme em Torrent para assistir após a leitura (viva a pirataria!). Finalmente voltei a ler, ufa. Bolhufas. Não durou uma semana minha obsessão. Eu estava embalado pelos clássicos do cinema. Mas enfim, não me julgo, pois hoje meu conhecimento de cinema é vasto desde o expressionismo alemão à pornochanchada. 

A principal responsável por me fazer voltar a ler foi a >atenção< esplendorosa magnífica cérebro de diamante: Carla Madeira. Ganhei “Tudo é Rio” da minha amiga Vick (te amo Vivi) e me obcequei. Dali pra frente foi só pra trás. Li tudo que ela escreveu. Daí aceitei novas indicações e li Aline Bei MARAVILHOSA. Daí voltei a frequentar livrarias de shopping (que tesão os cheiros) e aquela criança Peter Pan foi novamente agraciada. Rita Lee Jones, ou o ser humano mais interessante que já pisou nesse globo, também trouxe o pequeno jovem leitor filho da moça dos cachos e do rapaz de olhos puxados de volta a seu local de origem. Nesse meio tempo também, comecei a trabalhar no meu sonho de infância: na biblioteca municipal. E é onde estou até o presente. 

Hoje eu mais escrevo que leio, assumo. Mas estou escrevendo este justamente para me esforçar a ler mais. Porque não há prazer mais enfadonho que o da leitura e foda-se os rebeldes eu também gosto de foder, beber e dormir, mas devo acrescentar mais uma verbo nesse pódio das “melhores coisas”. 

Estou desengavetando livros empoeirados que eu vou ler e deixando-os expostos em minha escrivaninha. Espero que minha rinite não ataque até o fim do verão. 

Nota: Eu tenho quase certeza que o John Green terminaria melhor esse texto.

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terça-feira, 29 de outubro de 2024

Domingo tenha dó de mim, vai

eu tenho um problema sério com Domingos. tentei, por algumas vezes, tentar diagnosticar a raiz do problema. pensei que poderia ser traumas da infância (e mais uma vez os terapeutas estavam me regendo) pelas lendas urbanas passadas nos programas de auditório que era comumente apresentadas e reprisadas aos domingos, e eu, criança medrosa porém curiosa, adorava a adrenalina de assistir aquelas atuações horríveis e CGI de photoscape dos anos 2000, mas tinha que dormir de luz acesa do domingo à sexta-feira, que era quando o medo começava a esvair no meu pensamento. daí vinha o sábado e logo em seguida o domingo, e o ciclo se repetia. 

assumo sem culpa que meu ódio ao domingo me impulsiona criativamente. de fato os momentos frágeis é onde este eu lírico se torna mais agraciado pela latência de seu ofício, porém será que vale a pena? 

o meu blog, os meus blocos de nota, são repletos de um retrato singular de uma pessoa caricata e melodramática, e essa minha skin confronta tudo o que eu tento passar, ou seja: de mocinho à vilão. 

talvez eu lembre das repetidas vezes que minha catequista me disse que Deus descansou no sétimo dia. ou eu lembre de vestir minha melhores roupas, a pedido da minha mãe, para acordar cedo aos domingos e ir à missa, que inclusive era na frente de casa. 

talvez sejam as ressacas. ah, as ressacas. foram muitos lençóis manchados e vergonhas escondidas entre edredons e sais de fruta. algumas das burrices que mais me arrependo, a culpa só veio no domingo, pois no sábado havia todo o êxtase do córtex pré-frontal. mas eu vou culpar o ingênuo sábado por me despertar a persona extrovertida e baladeira? jamais. 

o sábado foi o expoente para eu viver as desgraças mais prazeirosas que eu já vivi (e as mais desastrosas também). a culpa sempre foi o domingo. 

talvez seja por que ele antecede a segunda-feira, injustiçada, só por retomar o ciclo da semana, onde você já se prepara para todos os esporros do seu chefe e para todos os “estou cansado” que a voz da sua cabeça irá repetir entusiasmadamente. é, na verdade, a culpa é do capitalismo, mas como está datado culpabilizar o mesmo, eu prefiro deixar de esmiuçar. 

talvez seja pelo retrato de memória da infância, quando meu avô ia pescar e eu e minha avó decidíamos passar o domingo com a minha madrinha Lourdes em sua casa abraçadora. seria uma memória boa, se minha madrinha não tivesse partido. de uma forma tão, mas tão solitária. 

e por coincidência, foi num domingo que eu soube da sua morte. logo após uma noite de pílulas e álcool, onde meu pai, nada sucinto, às 08h da manhã me pergunta com frieza “Gui tá sabendo que sua madrinha morreu?”. é, agora acabou a retomada de intimidade que eu me propus. acabou o acolhimento daquela pobre criança viada que pintava as unhas  no salão de beleza da madrinha e depois tirava para que não houvesse problemas em casa (leia-se: homofobia). acabou as pizzas congeladas duplamente recheadas e o DVD da Ivete Sangalo no Maracanã no volume mais baixo (por que meu padrinho era insuportável). Lembro de passar o dia todo no quarto com minha avó entre soluços e choros, ouvindo aquela do Ivo Pessoa e me lembrando dela. ah “madri” que saudade. 

mas talvez tudo isso seja apenas eu querendo meter referência goela abaixo, ou tentar romantizar a tristeza de uma forma escrota e zero sensível, e seja só culpa da música do Marcos e Belutti “domingo de manhã” (aquela bomba). 

a verdade é que eu gostaria que todo domingo fosse como o sábado. mesmo eu sabendo que erraria duas vezes numa só semana. 

p.s: que bom seria se fosse apenas duas vezes por semana.

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segunda-feira, 21 de outubro de 2024

e o meu erro foi crer que estar embriagado bastaria

Na verdade, o título não tem tanto a ver com o desabafo. Eu poderia, sim, falar dos malefícios do cigarro, que obstrui minhas faculdades físicas diariamente (frisando veias, pulmões, mãos e todo o sistema respiratório e digestivo), ou das rebeldias de adolescer (salve, Maria Mariana), quando aproveitamos as primeiras camadas da tensão pós-expositora das nossas queixas sociais para descontar no sistema nervoso com excesso de THC entre os 15 e os 21... Mas não. Hoje, simplesmente não estou entusiasmado em embalar minhas referências profundas para tentar aprimorar as técnicas de escrita.  

E, somente, me lembrar da música "Meu Erro", dos Paralamas (aliás, incrivelmente regravada por Chimarruts), que carrega "erro" no nome.  Essa é a "grande" referência metalinguística literária funcional e o caralho da puta que pariu.

A gente custa a entender nossos erros, né? Um idoso que fumou a vida inteira e, agora, aos 80, tem enfisema pulmonar, coloca toda a culpa de seu pulmão perfurado na pandemia da COVID-19. E aqui, sim, indiretamente, cito os malefícios de se embriagar. Mas quais foram os motivos que o levaram a fumar por mais de 50 anos de sua vida? Isso poucos se perguntam.  

Talvez os terapeutas me respondam coisas sobre a fase oral e o desmame do peito. Ah, os terapeutas... Eles só não me irritam mais que os nutricionistas. Mas a questão não é essa.  

Facilmente sei a resposta para o porquê de o senhor idoso ter fumado tantos e tantos caretas em sua curta jornada: a solidão, a frustração e o excesso de erros.  

Hoje eu errei algumas vezes. Tem diminuído com o tempo. Mas, à medida que eu erro, parece que a culpa gruda mais que chiclete de 15 centavos. Um erro versus um turbilhão de caminhões-pipa de culpas.  

Eu já disse que sou um imaturo na arte, que sou mais um dos que reproduz piadas sobre a vida adulta e pagar boletos, e já aposentei uma persona grata do meu âmago e sigo errando. Mas por quê?  

Olho para trás e vejo um caminho tortuoso, mas frutífero, e olho para frente e me sinto à deriva. Que minha fé, ainda que abalada, permita que meus anjos guiem meus caminhos.  

Hoje eu errei. E eu fumaria por 70 anos só hoje.  E o meu erro foi crer que parafrasear Paralamas adiantaria.

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quarta-feira, 28 de agosto de 2024

O pós-pandêmico de um não-sociólogo

Começo esse texto dizendo que parte essencial de eu estar gastando meu sagrado profano tempo de ócio escrevendo em um blog, é porque essa pérola viral da Menina do Ministério Etrom também tinha um blog em meados dos anos Y2K antes de enlouquecer. E se porventura eu venha a enlouquecer, cá estão meus registros sinceros e pessoais para futuros diagnósticos. Aliás, vi fragmentos desse blog através do Tik Tok. E essa rede social sim, tem a ver com o tema central do texto. 

Hoje eu arrisco meu eu-lírico imaturo da arte a tomar a liberdade de esmiuçar um assunto que cabe aos sociólogos. Algo sobre a pós-modernidade. Venha pensado nisso toda vez que meu eu está em estado de expansão, ou seja, quando me meto a me envolver com a Cannabis novamente. Minha ex namorada. Enfim. 

Eu me tornei mais observador nos últimos quatro anos. O Guilherme falante em excesso permaneceu, mas ele deu abertura para uma nova casca de observar mais > falar menos. Nem sempre funcionou. Mas eu me esforcei. Nessas muitas observações eu percebi um padrão que mudou desde 2020, quando passamos pela desgraça pandêmica da epidemia do COVID. Coisas como o obrigatório processo de migração de tudo tátil para o digital me fez roer as unhas. A gente acompanhou o analógico pro digital, mas o digital para o ultra digital assustava. Até pouco tempo atrás eu tinha medo do que a inteligência artificial poderia fazer com o mundo. Hoje, por exemplo, eu peço à mesma para corrigir meu uso de vírgulas antes de publicar um texto. 

As pessoas, que parte delas ficaram em quarentena, quando tomaram as doses das vacinas, começaram a tomar o tempo perdido em casa, perdendo o mesmo na rua. A criminalidade aumentou. Não visualizei nenhum dado preciso dos setores de Segurança, mas eu percebi que aumentou. O meu bar favorito da época da faculdade faliu nesse processo por excesso de ações com armas de fogo nele. Onde eu poderia novamente ser jovial? 

Uma reportagem que me fez chorar, foi sobre o futuro incerto dos circos, cultura esta que já estava morrendo. Era o fim da cultura efêmera e teatral. Dionísio sabe dos medos que nós, artistas das artes da cena, passamos em aposentar as carreiras mal começadas. 

Além disso as muitas uberizações do trabalho e todos os termos da época facilitaram o acesso para a era ultra digital. Essa que minha mãe, professora de primário, reclama. Reclama que os alunos que tiveram aula remota não tinham estrutura familiar suficiente e não foram devidamente alfabetizados. Fora as toneladas de comida que venceram em merendas escolares, estas que já são sucateadas por políticos corruptos que querem a privatização (a falta que as ratoeiras para adultos não faz né). 

Pois bem, tudo em pânico. As pessoas mais doentes. Sejam físicas ou mentais. Hoje psiquiatra por convênio é só para maio do ano que vem. As frases prontas e pensamento acelerado são um eterno….?? Do que estamos falando mesmo?

Fora os crimes cibernéticos que potencializaram com o acesso fácil e o tempo ocioso. E disso eu entendo, quem sabe, sabe.

Tudo isso, e muito mais eu venho chamando de Período Pós-Pandêmico. E com certeza algum sociólogo contemporâneo já deve estar estudando o feito. Mas esse retrato cru e singelo é de alguém que pensa constantemente nisso. E não, não é só pelo uso da Cannabis sativa. 

Hoje em especial, assisti um episódio trágico da minha pequena vila do Chaves (a minha cidade do interior) onde pessoas importantes foram vitimadas por crimes cibernéticos, e acho que isso que desencadeou a minha febre em escrever. A ânsia em botar o desgosto na mesa. Porque eu escrevo quando estou amargo. E esse amargo não é o mesmo de quando o COVID me fez parar de sentir o gosto da comida. É ainda mais estranho. Pós-dramático, Pós-pandêmico, Pós-Moderno. No fim, que se foda, deixem a sociologia para quem se importa com a mesma. 

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segunda-feira, 12 de agosto de 2024

Sou um imaturo da arte

Não fiz dez anos de teatro e nem sabia do método. Vim do teatro de igreja. Nas escolas, sempre o último a ser escolhido quando as práticas eram físicas e não criativas. Que daí eu era requisitado. Na faculdade fiz bons incríveis inestimáveis colegas e singelos amigos. Replicando a arte de ser pouco querido pelos demais. 

Há pouco comecei a me obcecar por biografias. Afinal, elas são retratos e recortes muito sensíveis daqueles que eu admiro. E vejo que a maioria dos grandes talentos foram gestados em meio a aulas de música clássica, dança erudita e Hollywood. Eu não. Minha carreira é pouco ou menos relevante do que da maioria dos professores de bairro (tendo em vista que estes fazem um trabalho muito mais social que eu e a educação está uma bagunça). Das aulas de pintura, eu não prospectei. Do teclado, que era gratuito pela igreja, também fugi. Inglês era caro demais. Cinema era raro por que no interior você via as cópias em DVD pirata gravadas dentro das salas de cinema para poder se inteirar da nova produção e comentar no Twitter. O teatro da escola era sempre démodé. O meu primeiro grande papel foi o de príncipe da Branca de Neve. Ótima performance! Se não fosse este eu-lírico uma criança viada que queria mesmo era o papel de princesa dos cabelos de ébano. Depois, a igreja. A igreja, por mais tirana que agiu na minha adolescência, foi o cenário de tantas inspirações criativas e morais que, de fato, é a ela quem eu devo o crédito. E pasmem, virei um rebelde também por influência da mesma. Entre papéis de Jesus de tecido Oxford, pecados, leilão de uma alma, lifehouse (esse eu choro até hoje), me refaz, etc etc, esse artista (se é que mereço a carteirinha) começou a explorar sua veia inclinada a arte e cultura ali. Antes da missa. Quisera eu que a vida fosse fácil como era na adolescência, período onde eu recebia um tema do coordenador do grupo de jovens, como por exemplo “Inveja” e tinha dali uma semana para criar, ensaiar, montar equipe e apresentar o teatro na igreja. Se eu não fosse este imaturo da arte eu saberia cedo que a arte é menos sobre a parte criativa e mais sobre a parte burocrática. Mas como eu poderia saber? 

É fato que a faculdade elucidou as minhas próprias “faculdades” mentais e me fez me tornar um ser questionador. O que antes era moral, agora não se aplicava. Este imaturo da arte era também imaturo de tudo. Principalmente dos acordes sociais. E essa fixação por revolucionar o mundo foi minha alma dentro da graduação. E também o local expoente por eu confundir sinônimos e antônimos. Aqui, as conversas longínquas e termos academicistas ficaram repetitivos. O patriarcado, as interssecionalidades, o lugar de fala, começaram a ser o tema central das minhas ações. Era um momento de transição da juventude à vida adulta e eu não podia estar sendo mais imaturo. Receio que muitas descobertas da época foram fatores essenciais pro meu desenvolvimento civilizatório, mas ainda assim, foram todos os meus, contados, cinquenta minutos de terapia. Sendo um imaturo, neste cenário, você não pode ser um imaturo. Você conviverá com os amigos da música clássica, da dança erudita, de Hollywood, mas também àqueles sujeitos que vieram de um rabisco no mapa do estado, e por algum motivo, também ecoam na frequência de desejo parecido com o teu, o de “fazer arte”. Muitos deles estavam em situação mais vulnerável que a minha. 

Tudo isso se desmembrou, quando, em sala de aula, eu pedi pra um garoto (que agora o nome do réu já sumiu no inconsciente), fizesse movimentos circulatórios com o quadril para alongar a virilha e o mesmo não fez. No Feedback, após a aula, eu tentei explicar que ele estava reproduzindo um comportamento do patriarcado e que isso já vem engendrado em nós, homens, e devemos estar abertos a desconstruí-lo. A cara de paisagem seguida de um ecoado “QUE?” me fizeram travar. Ué, seria este um sujeito imaturo por não saber todas as nomenclaturas corretas e acadêmicas sobre o machismo? Ou o imaturo sou eu? 

Dali, eu me vi num abismo. Pronto pra pegar voo, mas caí, caí e continuei caindo em queda livre. 

Hoje, eu sou um pouco menos imaturo da arte, mas ainda sendo. Descobri, na dor, que não vou agradar gregos e troianos, tampouco publicanos e fariseus (se o ditado me permite). E que ser um imaturo da arte no fim nem é de todo ruim. Exceto quando você vê os engravatados tomando todos os espaços por terem tido acesso à Hollywood e as aulas de francês. Mas não, não é ruim. Poder ser vulnerável! Rir da própria desgraça. Continuar seguindo o ofício, ainda que com quase nada de incidência. Sou um imaturo da arte pronto pra conhecer outros imaturos. E acho que essa é a graça. A de unir. 

Na contracapa da minha biografia, se esta for mesmo escrita um dia, direi que de nada sei e copiarei um trecho do prólogo de “O Retrato de Dorian Grey”. Nos agradecimentos eu não posso me esquecer da igreja e do menino revoltado por não querer rebolar na aula. No título, não sei. Ainda estou amadurecendo essa ideia (e tantas outras).

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segunda-feira, 4 de março de 2024

A pseudo-metáfora do Capitão Gancho sob tempos reflexivos

Cansei de ver crianças com coriza ganhando os presentes mais caros das lojas de shopping por pura implicância e explicação freudiana para no fim, brincarem com a caixa. se adolescer é como um murro no estômago, "adultescer" é como uma úlcera. dói, e aquela criança que antes tinha a desculpa da birra infantil para se apegar, agora precisa engolir seco. homem não chora. quantas repetidas vezes escutei essa maldosa frase? é claro que chora. faça o teste e tire um dente molar sem anestesia. ou lhe fure o mamilo com uma agulha de ponta espessa. arranque dele suas pessoas preferidas. lhe dê suco de wasabi ou o mande cortar cebola aniversariante (aquela que já passou tempos nos confins da geladeira). isso, não está para discussão de gênero e em demérito das mulheres. para este eu-lírico não há espaço de dúvida. mas desvencilhar esta ideia engendrada nos primeiros dez anos uterinos é de ranger os dentes. eu choro! e eu sou homem! hoje eu, por exemplo, já consigo apagar a luz de um cômodo e não sair correndo com medo do demônio. consigo conceber que a maioria dos demônios estão dentro da gente, e quem os alimenta somos nós. por vezes, me pego pensando na minha promessa-Peter-Pan que fiz aos sete anos: a de que nunca ia crescer. os hormônios e as responsabilidades são a metáfora precisa de Capitão Gancho nesse caso. outro injustiçado. 

as páginas online de piadas ultrapassadas gostam de apontar que ser adulto é só sobre pagar boleto(s). eu finjo risada quando algum sujeito nota 06 me re-conta essa piada. é sobre pagar boletos e o preço daquilo na qual você foi submetido anteriormente, na sua imaturidade demasiada. 

por exemplo, hoje eu tenho menos fôlego que antes devido a alta quantidade de cigarros que fumo diariamente. aliás, esse ano faz dez anos que convivo com minha amiga Nicotina. maldita amizade tóxica. 

além disso, o mais injusto, é quando você paga pelo preço do outro. pais de geração X que decidiram se casar por pura convenção social e que descarregaram um caminhão de traumas em um jovenzinho na primeira infância. ou posso ser mais infame e contar dos inúmeros casos de toques sexuais não solicitados e assédios tantos. mas não preciso.

as vezes, o preço que a gente paga por adultescer é muito mais denso do que apenas boletos. 

vivo o desprazer de criar relações na era menos tátil da história. receio dizer que nem nas muitas pandemias que a história apresentou estávamos tão sem contato. 

as relações esfriaram. acredito no aquecimento global pela fé na ciência e pela onda fria que as geleiras dos polos do globo emanam para as pessoas. romântico? nem tanto. 

hoje eu só gostaria de ser aquele pequeno jovem que brinca com a caixa. que dela vira um avião, um esconderijo de sereias, um vulcão, etc etc. mas não dá, os boletos estão aí para me impedirem. Capitão Gancho você me paga por concordar com piadas básicas.

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segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

Dear Old Pink (finalmente)

 Queridy Pink Mamba, 

Eu havia prometido fazer uma carta para você do passado. Como já havia vomitado antes, eu sempre gosto de escrever cartas para o eu do futuro, e hoje, decidi, sem entender o real motivo, escrever uma carta para o antigo Guilherme. Das palavras bonitas que o blog carrega o nome eu peço licença para desconsiderar. 
Primeiro que o tempo não só envelhece, como adoece, e não gostaria de te desestimular. Algumas coisas de fato melhoram, como por exemplo, você percebe que os bons amigos são aqueles cinco ou seis que ficam, e por mais dolorido que seja despachar pessoas em estações, é satisfatório ver quem ainda está com você. Vida longa as antigas amizades que conheceram suas várias versões. 
Mas sim, o tempo adoece. Literalmente, mas dessa vez, quero romantizar. Você sempre foi uma criança muito imaginativa, criativa, corajosa (em partes) e feliz demasiadamente. Com o tempo, fator crucial pelo adoecimento, parte da sua atividade imaginativa abdicou da cadeira de assento prioritário para as famosas frustrações. E SIM, você continua sendo imaginativo, mas parte do tempo, quase integral, é confabulando os piores cenários, como a morte, que te cerca de todos os ângulos e dando palco pra um colega desagradável que você vai tomar consciência por volta dos 18 anos, o famoso: pânico. 
Antes pânico fosse somente uma franquia de sucesso de Hollywood. Estaria tudo melhor. Mas nem tudo são flores artificiais de cemitério, a criatividade sempre vai andar lado a lado com você. Ela e o Pânico são rivais, pois ela suaviza seus encontros com ele. Além do mais, te asseguro que você irá trabalhar muito com ela. Haverá espasmos criativos quase todos os dias. Irá cursar Artes, que você sempre sonhou e irá trabalhar com várias pessoas que tem pulsões parecidas com a sua. Ímpeto de fazer aquilo que você também sempre sonhou em fazer. De fato, não será um caminho fácil. Você vai encontrar muitos parasitas buscando hospedeiros, mas também muitas pessoas de função inseticida.
É, os problemas com o corpo também mudarão de figura. Se hoje, aí no passado, você se odeia por ter um corpo gordo, aqui no futuro, esse fato é apenas um fator expoente pra você não deixar morrer seu alter-ego, agora aposentado, mas ainda vivo. As preocupações com o corpo serão outras. Muitas delas, têm a ver com o Pânico, mas também com outra adversária: A Autoestima.  
Você irá procurar psicólogos e terapeutas renomados, mas a resposta estará muito mais fácil de acessar do que você imagina. Hoje, sei que a minha ferida mais latente é o medo da rejeição. É, pequeno Guilherme, ela acontece. Não como o clichê de um filme da Disney Channel. (Aliás, aqui no futuro a Disney Channel nem tem mais tanta graça.) 
Você passará um tempo morando com desconhecidos, morará sozinho e retornará, também, para o colo da sua mãe. E se eu pudesse te dar um conselho precioso seria: facilite a vida da sua mãe. Ela, infelizmente, abdicou de muita coisa para que você pudesse ter uma vida confortável e esse seu senso de rebeldia nuclear - EU SEI DE TUDO - EU ODEIO TODO MUNDO -  é completamente deplorável. Você, ainda bem, reestabeleceu uma boa relação com uma família que te aceita e te ama em suas desmedidas e imensidões. 
Sobre aceitação, por mais que o medo da rejeição seja inconsciente, a aceitação liberta. O tempo adoece, mas a aceitação liberta. 
Te aviso para tomar cuidado com os reizinhos que permitir adentrar o seu reino, entenda como quiser. Alguns deles deixarão feridas expostas cheias de larvas em você. E você, de maneira errônea, irá tentar revidar de maneiras catastróficas e vergonhosas. Alguns vilões sequer tem cacife para assumirem esse papel, portanto não dê tanta importância. E ah, pare de atribuir culpa aos outros pelas suas ações e expectativas, isso vai reduzir seus problemas pela metade. 
Você vai conhecer pessoas maravilhosas e mostrar sua alma para elas, mas nesse caminho será fácil se confundir com as controversas. Enfim, sempre sobre pontos de vista. 
Eu te acolho, eu te perdoo, eu te desculpo. E você irá aprender, com o tempo o quanto esse movimento é importante. 



Prometi postar com essa. E sim, você ainda ama a Rainha do Rap. 

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