quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Fora de Órbita

Minha mãe pariu um foguete.

E não por eu ser especial demais e nem pelo tamanho da dilação vulvar da pobrezinha da minha Deusa-Mãe, com seu agô.

Signo de ar, avoado e sempre adoentado mentalmente. Troca de medicação, troca de abordagem de terapia, troca de psiquiatra. Repetidas doses de medicação de curto período da alta plasmática e sempre em demasia.

Filho de Oxum, a sereia da água doce, que leva, com sua sabedoria ancestral, através da correnteza do rio, que às vezes é intensa, toda a dor. Ora yê yê ô! Mas, ao mesmo tempo, me faz ter facilidade ingênua em derramar lágrimas em quase toda situação cotidiana.

Meu pai Xangô, Kaô Kabecilê!, me traz o senso de justiça com que eu nasci, efervescente. Me incomoda o fato de kiumba encarnado se dando bem enquanto eu fico vulnerável por qualquer mera mensagem ofensiva ou crítica não solicitada.

De ancestral, Ogum, o orixá arrependido de ter ceifado toda uma tribo. Do ferro, da guerra. E eu sempre pulando de guerra em guerra.

Artista. Tentando replicar os incômodos cerebrais e incestuosos (dos segmentos da arte) que me custam os fios de cabelo branco, que já ameaçam aparecer aos 26, para seguir no meu ofício.

Apaixonado. Não por homens. Aliás, por vezes, sim. Mas isso é papo para outra hora. Apaixonado em tudo que se propõe, mesmo que isso me custe cartelas de quetiapina e noites maldormidas.

Explosivo. Imprudente. Em mania. Sempre odiando o tédio como o meu maior inimigo e travando guerras sinistras com este. Por vezes, me embriagando de álcool barato, às vezes me dopando (dos já citados) comprimidos. Ademais, as outras drogas eu renunciei.

Pânico. Pré e pós-pandemia foram momentos tempestuosos. Eu achava que fosse morrer a cada segundo. Por vezes, eu cheguei perto. Um Marinheiro me disse isso uma vez.

Gay. E, por mais que minha personalidade seja meu ponto forte de qualidade, é inegável o quanto ainda a homofobia nos acomete numa quarta-feira, às 14h36min da tarde, e você fica impotente, percebendo que a bolha universitária na qual foi inserido, de que o mundo é colorido, que as pessoas trans são respeitadas, que os movimentos sociais são ouvidos… é, quase, uma luta perdida.

Mortos. Os mortos que passaram pela minha jornada me ensinaram muito. Sempre cito a tia Fran, que, de onde estiver, deve estar desanimada com a minha falta de fé em mim mesmo, mas que foi expoente em me fazer seguir o meu sonho jovial aos dezesseis anos. Te amo, Tia Fran! Tenho tentado ser, um pouquinho do que você foi pra mim, pra Nicole. Não sei se tenho conseguido, mas eu tenho me esforçado.

Minha madrinha. Lourdes. Cabeleireira que sempre me deixou pintar as unhas e tirava com acetona antes que eu voltasse pra casa, para que meu pai não fosse grotesco. Sinto sua falta.

Meu avô paterno. Queria que meu cérebro me permitisse ter alguma lembrança do senhor. Mas sei que a sua morte, pelo coração, me ensina a trabalhar (e zelar) melhor pelo meu.

À minha mãe, eu peço desculpa. Desculpa por sempre estar vivendo nos 440, nos 220 e nos 110. Na inércia e a 200 km/h. Na depressão e na mania. Na arrumação em excesso e na bagunça. Na ausência de fome (que dá halitose, fica a dica) e na compulsão alimentar. Na via sacra e na calunga pequena. Nos extremos e nos mínimos.

Eu não queria ser um foguete. Eu viveria muito melhor sendo apenas um aviãozinho de papel. Desses que a gente faz na escola e se acha o próprio Santos Dumont. Mas acho que essas escolhas não vêm com a gente. Cabe a nós tentar levantar voo quando for pra cair e haver uma tragédia, ou saber o momento certo de pousar. E fora de órbita eu já vivo. O vácuo do espaço não ia me fazer bem, a gente sabe. Talvez eu não seja um foguete, eu mesmo tenho medo de altura. Talvez eu seja um dos planetinhas do Pequeno Príncipe em completa desarmonia. Mas os planetas se alinham. Não lembro tanto de astronomia, mas eu sei que se alinham de vez em quando. E, quando todos estiverem alinhados, eu volto aqui para contar a novidade.

Luz para os seres de luz e sombra pra quem me emana sonora.


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