Num dia qualquer de algum ano qualquer, em meados dos anos 2010, eu tive um pseudo-presságio. Eu lembro nitidamente, porque tentei por várias vezes materializar aquela cena que eu “pressagiei”.
No dia em questão, eu estava em casa, lendo algum dos livros de sagas que, nos primórdios dos anos 10, eram virais entre os jovens, e já era tarde da madrugada. Foi quando veio o meu presságio.
Era quase como uma visão do futuro. Era eu, sentado numa escrivaninha, frente a uma imensidão de luzes acesas em apartamentos, e, ao fundo, tocava especificamente a música Vagalumes Cegos, do Cícero.
Tenho, ultimamente, percebido que meus escritos sempre soam como aqueles vídeos caricatos de propagandas de merchandising da Manu Gavassi ou narrações de peças de teatro muito seriamente contraditórias, e eu queria mudar isso. Portanto, ao longo do texto, vou acrescentando frases desconexas para quebrar o gelo cênico.
Em 2017, eu saí do colo da minha mãe e fui descobrir, em conjunto com mais dois marmanjos, que louça não se lava sozinha. Fizemos o êxodo da cidade do interior para a pseudo cidade grande e metrópole mais próxima daqui.
É engraçado pensar que hoje sou iniciado na Umbanda e, na época, eu adorava usar drogas para falar sobre espiritualidade. Um dia eu até acendi uma vela para “Preto Velho” me ajudar na dor de garganta que eu sentia. Na época, não entendia o peso disso. Mas, de fato, a dor de garganta passou.
Os marmanjos eram tão poodles de madame de suas mães quanto eu. A diferença é que eu tinha pedigree. E, nessa redoma de fumaça de narguilé e bigatos no lixo, eu me aventurava fazendo ménage à trois com a Mari e a Jhuana.
Numa certa noite, me embebedando da erva, me toquei do presságio. Levantei e olhei para a janela. Coloquei a música do Cícero no meu notebook (que, dias depois, quebrou por negligência) e fui até a janela. Não havia escrivaninha. Não havia a magia do presságio.
Comecei a perceber que eu coloquei o sarrafo lá em cima quando tive a visão. A escrivaninha era algo meio caricato do que eu via no Tumblr em 2014. A vista das janelas era incômoda, inclusive. Várias luzes acesas eram sinal de muita gente. E eu, tendo a visão de muitas pessoas, me incomodava. A música do Cícero. Me perdoe o mesmo, mas já me enjoava. Pelo menos aos dezessete anos eu já não era tão performático como aos 14, quando fingia gostar de Beatles.
Percebi que não era ali a minha visão. A maconha encerrou o seu trajeto e o fumo virou mela de haxixe no cinzeiro. Vamos dormir.
Tive brigas intensas com os rapazes que moravam comigo. Não os culpo. Eu era insuportável. Continuo sendo. Mas menos.
Uma vez, minha amiga tinha acabado de tentar cometer suicídio, e eu estava com ela no hospital, esperando que algum médico psiquiatra de plantão aplicasse diazepam logo em sua veia, e logo me veio uma mensagem. Fui expulso do apartamento em que eu morava. Ao final do contrato, eu estaria fora.
Sou insuportável. Eu sabia. Mas não era momento para aquilo. Minha amiga de atitude suicida era vegetariana. Naquela noite, dopada de Diazepam e Dramin, ela comeu um X-Bacon.
Me mudei meses depois. Fui morar na Clementina Basseto, nº 300, apartamento 206. Era uma rua sem saída e paralela ao teatro em que eu estudava. Aqui será o cenário do meu presságio, pensava.
Então, drenando a minha visão de quase dez anos antes, eu me droguei de maconha, vinho e comprimidos. Talvez de cogumelos mágicos também, não me lembro (foi uma época tempestuosa). Olhei pela janela.
O cenário era mais como antes eu imaginava. Tinha as janelas desconfortáveis. A luz dos apartamentos. A escrivaninha não tinha, mas, poxa… presságios mudam. A luz da lua sendo um spot de luz quente. Ok. Celular na mão. Tempos de Pipa. Vagalumes Cegos. Cícero. Nada.
Eu não senti nada.
Estou certo de que senti algo, afinal eu estava drogado. Mas nada sobre o presságio. Essa época é conturbada, e eu receio que não lembre de tanta coisa. Afinal, o uso de substâncias era intenso, as amizades, os amores, as traições, os sexos, as aulas de teatro. Tudo era muito intenso. Acho que meu cérebro me drenou de muita coisa e guardou nas gavetas do meu inconsciente. Valeu, cérebro. Não é sempre que você é um cara massa, mas, nesse caso, você foi top 1.
O presságio era uma mentira. Comecei a desconfiar, de forma lúgubre, que talvez fosse a visão do dia em que eu fosse morrer.
É claro, eu iria morrer com aquela cena. Uma janela. Luzes e, enfim, vocês já sabem, me poupem caracteres. Seria o dia da minha morte.
No fim, eu estava desenvolvendo síndrome do pânico. Tudo era sobre morte. Escrevi alguma peça sobre isso. Eu acho. Não lembro. Como eu disse, era tempestuoso.
Anos depois se passaram, e eu percebi que, na verdade, o presságio era só sobre o momento em que eu pensei nele. A cena materializada. O poder de criar com a mente. A nuance pequena dos microdetalhes.
Não posso dizer que foi só sobre isso, porque logo após eu resolvi criar a tradição. E agora, sempre que lembro desse fato, eu tento reproduzir a cena. Seja olhando para a parede, seja no trabalho, seja em algum lugar de vista noturna e Spotify de fácil acesso.
Agora tudo isso se torna um pequeno texto. E a tradução se expande. Agora eu pedi para a inteligência artificial criar uma arte sobre isso. Estou certo de que quem precisa de diazepam hoje sou eu. Drogas não quero. Não lembro. Foi muito tempestuoso.
Depois que escrevi tudo isso, pedi para uma inteligência artificial criar uma imagem daquela cena. A escrivaninha. A janela. Os apartamentos. Os vagalumes. O Cícero tocando ao fundo. Ela fez.
Aí eu tive uma ideia pior.
Pedi para ela terminar esse texto.
Então termina esse texto para mim, IA.
Sem mancada.
Não vou te dar prompt nenhum.
Você termina.
…
Infelizmente, depois de quinze anos perseguindo um presságio, o meu destino era acabar terceirizando o final dele para um algoritmo.
Acho que isso diz mais sobre 2026 do que sobre mim.
Ou talvez diga justamente sobre mim.
Enfim.
Presságios mudam.
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