segunda-feira, 12 de agosto de 2024

Sou um imaturo da arte

Não fiz dez anos de teatro e nem sabia do método. Vim do teatro de igreja. Nas escolas, sempre o último a ser escolhido quando as práticas eram físicas e não criativas. Que daí eu era requisitado. Na faculdade fiz bons incríveis inestimáveis colegas e singelos amigos. Replicando a arte de ser pouco querido pelos demais. 

Há pouco comecei a me obcecar por biografias. Afinal, elas são retratos e recortes muito sensíveis daqueles que eu admiro. E vejo que a maioria dos grandes talentos foram gestados em meio a aulas de música clássica, dança erudita e Hollywood. Eu não. Minha carreira é pouco ou menos relevante do que da maioria dos professores de bairro (tendo em vista que estes fazem um trabalho muito mais social que eu e a educação está uma bagunça). Das aulas de pintura, eu não prospectei. Do teclado, que era gratuito pela igreja, também fugi. Inglês era caro demais. Cinema era raro por que no interior você via as cópias em DVD pirata gravadas dentro das salas de cinema para poder se inteirar da nova produção e comentar no Twitter. O teatro da escola era sempre démodé. O meu primeiro grande papel foi o de príncipe da Branca de Neve. Ótima performance! Se não fosse este eu-lírico uma criança viada que queria mesmo era o papel de princesa dos cabelos de ébano. Depois, a igreja. A igreja, por mais tirana que agiu na minha adolescência, foi o cenário de tantas inspirações criativas e morais que, de fato, é a ela quem eu devo o crédito. E pasmem, virei um rebelde também por influência da mesma. Entre papéis de Jesus de tecido Oxford, pecados, leilão de uma alma, lifehouse (esse eu choro até hoje), me refaz, etc etc, esse artista (se é que mereço a carteirinha) começou a explorar sua veia inclinada a arte e cultura ali. Antes da missa. Quisera eu que a vida fosse fácil como era na adolescência, período onde eu recebia um tema do coordenador do grupo de jovens, como por exemplo “Inveja” e tinha dali uma semana para criar, ensaiar, montar equipe e apresentar o teatro na igreja. Se eu não fosse este imaturo da arte eu saberia cedo que a arte é menos sobre a parte criativa e mais sobre a parte burocrática. Mas como eu poderia saber? 

É fato que a faculdade elucidou as minhas próprias “faculdades” mentais e me fez me tornar um ser questionador. O que antes era moral, agora não se aplicava. Este imaturo da arte era também imaturo de tudo. Principalmente dos acordes sociais. E essa fixação por revolucionar o mundo foi minha alma dentro da graduação. E também o local expoente por eu confundir sinônimos e antônimos. Aqui, as conversas longínquas e termos academicistas ficaram repetitivos. O patriarcado, as interssecionalidades, o lugar de fala, começaram a ser o tema central das minhas ações. Era um momento de transição da juventude à vida adulta e eu não podia estar sendo mais imaturo. Receio que muitas descobertas da época foram fatores essenciais pro meu desenvolvimento civilizatório, mas ainda assim, foram todos os meus, contados, cinquenta minutos de terapia. Sendo um imaturo, neste cenário, você não pode ser um imaturo. Você conviverá com os amigos da música clássica, da dança erudita, de Hollywood, mas também àqueles sujeitos que vieram de um rabisco no mapa do estado, e por algum motivo, também ecoam na frequência de desejo parecido com o teu, o de “fazer arte”. Muitos deles estavam em situação mais vulnerável que a minha. 

Tudo isso se desmembrou, quando, em sala de aula, eu pedi pra um garoto (que agora o nome do réu já sumiu no inconsciente), fizesse movimentos circulatórios com o quadril para alongar a virilha e o mesmo não fez. No Feedback, após a aula, eu tentei explicar que ele estava reproduzindo um comportamento do patriarcado e que isso já vem engendrado em nós, homens, e devemos estar abertos a desconstruí-lo. A cara de paisagem seguida de um ecoado “QUE?” me fizeram travar. Ué, seria este um sujeito imaturo por não saber todas as nomenclaturas corretas e acadêmicas sobre o machismo? Ou o imaturo sou eu? 

Dali, eu me vi num abismo. Pronto pra pegar voo, mas caí, caí e continuei caindo em queda livre. 

Hoje, eu sou um pouco menos imaturo da arte, mas ainda sendo. Descobri, na dor, que não vou agradar gregos e troianos, tampouco publicanos e fariseus (se o ditado me permite). E que ser um imaturo da arte no fim nem é de todo ruim. Exceto quando você vê os engravatados tomando todos os espaços por terem tido acesso à Hollywood e as aulas de francês. Mas não, não é ruim. Poder ser vulnerável! Rir da própria desgraça. Continuar seguindo o ofício, ainda que com quase nada de incidência. Sou um imaturo da arte pronto pra conhecer outros imaturos. E acho que essa é a graça. A de unir. 

Na contracapa da minha biografia, se esta for mesmo escrita um dia, direi que de nada sei e copiarei um trecho do prólogo de “O Retrato de Dorian Grey”. Nos agradecimentos eu não posso me esquecer da igreja e do menino revoltado por não querer rebolar na aula. No título, não sei. Ainda estou amadurecendo essa ideia (e tantas outras).

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