terça-feira, 29 de abril de 2025

Hoje eu tive um pesadelo

Hoje eu tive um pesadelo. 

Hoje eu tive um pesadelo e não posso acreditar em tamanho descaso de meu inconsciente em deixar que o meu organismo apenas estivesse tentando me acordar pelo mau jeito de dormir ou a falta de oxigenação no cérebro. 

Hoje eu tive um pesadelo e, nessa pesadelo, o cenário eu conhecia. Era vermelho, igual aos rios de sangue do inferno de Dante. Entre o primeiro ciclo de sono e o segundo, eu “pesadelei” (visto que pesadelo é antônimo de sonho, do verbo "sonhar") com alguém de quem eu nem lembrava mais. Com uma pessoa que passou e foi embora. Pessoa que passou. Nada de caso pensado, pois eu sequer lembro de ter citado o nome do mesmo na tarde de ontem, enquanto reforçava a camada de gordura visceral de meu fígado com álcool barato. No sonho o contexto era sexual. Não de um jeito feliz como os contos eróticos promovem ser. Aliás, deixo aqui todo o questionamento da semântica da frase “eu sonhei sobre sexo com este alguém” e faço meus questionamentos totalmente desligados das regras gramaticais. Talvez, os rios de sangue do inferno tenham acordado Incubus e este tenha prestado atenção em minha vulnerabilidade insustentável durante a madrugada de pré-domingo. Afinal, domingo é o dia que o Criador descansou, e o demônio quis testar minha sanidade na ressaca do álcool reparador de rejunte hepático. Boa tentativa, Incubus, este não foi possível de me acordar. Eu já nem lembro mais dele. 

Hoje eu tive um pesadelo, e nele, entre o segundo e o terceiro ciclo de sono, me veio como enredo a minha família. Já que o primeiro ciclo não havia feito diferença alguma, eles, dessa vez, apelaram. Era sobre Laura, a minha afilhada. Foi eu que a segurei no colo enquanto o padre jogava água benta sobre seu orí quando era recém-nascida. No sonho, alguma crueldade. Na vida real, apenas mais esse deglute de cristianismo de tom estuprador, onde ela não teve escolha sobre ser batizada, afinal a mesma ainda não identificava a diferença entre o dedo da mãe e o bico do peito. Aqui eu acordei. Virei pro lado. Deve ser o lanche que eu comi afogando as mágoas ontem, pensei, indigesto. Tomei água, reforcei o ar condicionado e garanti que a televisão continuasse ligada naquela canal gratuito que só passa promoções de joias na madrugada. Tudo certo. Vamos ao próximo ciclo. 

Entre o terceiro e quarto sono, hoje eu tive um pesadelo. Este era de tom profissional, se não fosse minha mera insignificância errante ao mesclar vida pessoal x profissional. Eu estava em um evento. Desses que eu promovo em parceria com a repartição pública na qual faço oito horas por dia e paga minhas contas todo fim de mês. O evento poderia ser um sonho, visto que estava organizado, não fosse pela aparição de Sarah nele. Ela possuía um aspecto estranho. E dela eu comentei ontem. Ontem, anteontem, e antes de anteontem. Mês passado. Ano passado. E em meados de 2023, quando tomei nota da minha dor e reparti isso com este blog mofado. Ela ria e eu tentava pedir para que o tom da conversa não fosse risonho. Eu precisava ouví-la e ela precisava falar. Esta é uma que vive sempre nos nove círculos de Dante. Me comuniquei de maneira errônea e logo minha mãe, coadjuvante no sonho, não deixou que eu me aproximasse dela. Sim, aos vinte e cinco anos minha mãe ainda decide com quem eu devo ou não andar. Nem sempre atendo seu pedido, assumo, porém no sonho eu bati o pé. Agora, perto do meio dia de domingo, eu já não lembro o que conversamos. Afinal, ela sempre me visita em pesadelos. Mais do que na vida real. Mas como eu disse anteriormente, esse assunto já foi pauta deste eu-lírico. E por volta do meio dia eu me encontro na boemia de escrever este texto sobre pesadelos tendo me dopado de Venlax, Alprazolam, Cafeína e Nicotina. Que baita de um hipócrita eu sou. Os demônios da madrugada aqui me acordaram novamente, e agora tenho sequelas de pensamento, mas acho que foi tempo de abrir o celular e ver a timeline de alguma rede social. 

Hoje eu tive um pesadelo, e depois de ter sonhado com o meu ex do passado, com a minha afilhada, meu trabalho e minha amiga Sarah, não havia mais nada de que meu inconsciente podia criar. Um último suspiro de horror, receio. Era uma festa. E eu estava lá embalado de bebida e de outras substâncias. Houve um tiro. Ninguém sabia da onde vinha e quem era a vítima. Este foi o enredo. Eu procurando desnorteadamente quem havia sido baleado. No fim, não encontrei, mas esse pesadelo tem explicação nas muitas informações que recebo diariamente de crimes não ficcionais em qualquer lugar midiático. Também não me assustou o suficiente. Mas acordei, agora definitivamente. 

Hoje eu tive um pesadelo, mas na noite anterior eu tive um sonho prazeroso demais. Fui dormir na ânsia carnal de um deleite sexual e não experimental. Cômodo mesmo. O mais do mesmo. E quando sonhei, o rapaz que estava comigo era alguém com quem já me envolvi anteriormente. Neste blog não atribuímos juízo de valor a nada. O “palavras bonitas” é um paradoxo, pois eu posso dizer todas as palavras mais esdrúxulas e podres que combinadas em frases pode soar como algo poético. Só não vão me ver escrevendo a palavra “garfo” que é a que eu mais odeio da língua portuguesa. Aliás, por sinal, é a minha favorita. Um sonho quente, cheio de envolvimento carnal e febriculoso. 

Hoje eu tive um pesadelo, mas ontem, quem teve foi o marido da minha mãe, que “pesadelou” sobre levar um choque e acordou a casa toda. 

Hoje eu tive um pesadelo e espero que todos os ciclos do inferno de Dante tenham se encerrado enquanto eu dormia. 

Hoje eu tive um pesadelo, mas hoje também, quero encontrar os meus cristais Ônix, que dizem as bruxas que afastam pesadelos. Eu nunca mais tomei Trazodona, por exemplo. 

Hoje eu tive um pesadelo e espero que na próxima noite eu não tenha. 

Hoje eu tive um pesadelo, mas.. eu sempre tenho.

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quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

Minha breve e romântica história de amor com livros

Sou filho de um radialista locutor esportivo aposentado e uma pedagoga letrista, excelente em alfabetização. E pela minha liberdade poética eu afirmo que isso não é mentira. 

Meu pai, antes de se enamorar pelos encantos da jovem de cabelos cacheados e sardas evidentes, narrava os jogos de futebol nacionais numa rádio popular na minha pequena cidade do interior. Até hoje, quando, muito raramente, eu e ele temos um momento de ócio conjunto, ele faz narrações improvisadas que deixaria qualquer Galvão Bueno desempregado. Sem modéstia, o cara é foda. 

Daí veio a jovem professora, que se deixou levar pelas cantadas caretas do Don Juan de olhos puxados mas sem ascendência amarela, que educou e letrou pelo menos quatro ou cinco gerações antes da minha.

Um radialista e uma professora. Como eles ficaram tão surpresos quando eu decidi me tornar artista? 

Eu era uma criança enjoada, assumo. Feijão? Nem pensar. Escola particular, Roupas da Tigor T Tigre, Jogos de Tabuleiro, e por aí vai. Mas ainda que enjoada, eu sempre me vendia fácil quando ganhava livros. 

Antigamente, haviam aquelas coleções de livros curtos com contos de fadas que vinham em uma caixa de papelão ultra colorida e chamativa, e eu sempre quis todas que esses vendedores-de-livros-em-caixa-de-papelão vendiam frente às escolas. Horário de pico, eles eram espertos. Qualquer criança ficava deslumbrada com aquelas cores e a fantasia das histórias. 

Assumo que nos primórdios eu brincava mais com a caixa do que com os próprios livros, até que minha mãe leu “Peter Pan” pra eu dormir. Obviamente aquela noite o sono não veio, pois esperei entusiasmado na janela de casa o pequeno menino que não queria crescer para me levar à Terra do Nunca (onde eu ia encontrar as sereias). Há uma memória falsa ou um sonho lúcido de que uma noite eu vi a sombra dele na janela. Não quero racionalizar sobre, vamos acreditar na fantasia. 

Depois, veio a adolescência e com ela, a vontade de ser intelectualmente aceito. Sou grato pelos meus pais terem trepado nos anos 90, pois assim, eu vivi os anos 10 muito bem recheado de distopias fantasiosas e romances clichês. Comecei por Jogos Vorazes e fui caminhando por todas as trilogias da época, até que encontrei meu primeiro grande amor: John Green. 

Ah, John Green! Ele inventava metáforas onde, em minha concepção de adolescente sonhador, eram as mais efervescentes e criativas de toda a história da literatura. Como a do cigarro de Augustus Waters de “A Culpa é das Estrelas”. Muito lindo mesmo. É fato que eu roubei cigarros da carteira do meu padrasto para viver a aventura jovial completa e hoje sou um completo tabagista infeliz, porém John Green: você foi o cara. 

A adolescência foi se esvaindo, os livros por prazer se tornaram as obrigações de vestibular, e eu, nunca reclamei. Eu adoro os clássicos. Gregório, José de Alencar, Machado de Assis, Gonçalves Dias, Fagundes Varela, Álvares de Azevedo, Aluísio de Azevedo, Raul Pompeia, Augusto dos Anjos, e por aí vai. Me diverti com eles. 

Mas as histórias vão se tornando cada vez mais reais, e foi em meados dessa época que fui provocado por uma professora de ensino médio que me desafiou a fazer silêncio por sete aulas suas, fato este que me fez prestar atenção quando a mesma falava sobre o Trovadorismo. Me apaixonei. As notas despencaram em Literatura de forma desproporcional com as Exatas que eu sempre reprovei e fui passado pelo conselho de classe (alerta de segredo secreto). 

Na faculdade eu li pouco. O lisérgico e a sexualidade aflorada, combinados com falsas desilusões e arte pulverizada me fizeram um não-leitor. Bertold Brecht? Não li (não vou nem confirmar se o nome do mesmo está certo). Antoan Artaud, Augusto Boal, Willian Shakespeare, Vitor Hugo, Nelson Rodrigues, (e eu nem lembro tantas referências) eu não li. Me perdoem os meus alunos. Posteriormente eu retomei grande parte do conhecimento que me foi passado (já me retificando).

E o prazer de ler nunca mais foi o mesmo. 


Tempo se passou e hoje sou sobrevivente de uma pandemia. Muitos dos livros de distopia que li na adolescência começavam meio neste tom. Mas é a real. Vivi durante uma pandemia mundial onde a - maioria - das pessoas se privaram do contato humano e ficaram reclusas em suas casas. Época de descobrir novos hobbies. Eu tive o privilégio de ficar em casa, então estou falando deste lugar, JAMAIS em demérito de outras pessoas. E foi quando eu decidi retomar minha grande coleção de livros. Trombei em “Me chame pelo seu nome” e fiquei encantado em ler um romance homoerótico passado nas paisagens lindas da Itália. Baixei o filme em Torrent para assistir após a leitura (viva a pirataria!). Finalmente voltei a ler, ufa. Bolhufas. Não durou uma semana minha obsessão. Eu estava embalado pelos clássicos do cinema. Mas enfim, não me julgo, pois hoje meu conhecimento de cinema é vasto desde o expressionismo alemão à pornochanchada. 

A principal responsável por me fazer voltar a ler foi a >atenção< esplendorosa magnífica cérebro de diamante: Carla Madeira. Ganhei “Tudo é Rio” da minha amiga Vick (te amo Vivi) e me obcequei. Dali pra frente foi só pra trás. Li tudo que ela escreveu. Daí aceitei novas indicações e li Aline Bei MARAVILHOSA. Daí voltei a frequentar livrarias de shopping (que tesão os cheiros) e aquela criança Peter Pan foi novamente agraciada. Rita Lee Jones, ou o ser humano mais interessante que já pisou nesse globo, também trouxe o pequeno jovem leitor filho da moça dos cachos e do rapaz de olhos puxados de volta a seu local de origem. Nesse meio tempo também, comecei a trabalhar no meu sonho de infância: na biblioteca municipal. E é onde estou até o presente. 

Hoje eu mais escrevo que leio, assumo. Mas estou escrevendo este justamente para me esforçar a ler mais. Porque não há prazer mais enfadonho que o da leitura e foda-se os rebeldes eu também gosto de foder, beber e dormir, mas devo acrescentar mais uma verbo nesse pódio das “melhores coisas”. 

Estou desengavetando livros empoeirados que eu vou ler e deixando-os expostos em minha escrivaninha. Espero que minha rinite não ataque até o fim do verão. 

Nota: Eu tenho quase certeza que o John Green terminaria melhor esse texto.

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terça-feira, 29 de outubro de 2024

Domingo tenha dó de mim, vai

eu tenho um problema sério com Domingos. tentei, por algumas vezes, tentar diagnosticar a raiz do problema. pensei que poderia ser traumas da infância (e mais uma vez os terapeutas estavam me regendo) pelas lendas urbanas passadas nos programas de auditório que era comumente apresentadas e reprisadas aos domingos, e eu, criança medrosa porém curiosa, adorava a adrenalina de assistir aquelas atuações horríveis e CGI de photoscape dos anos 2000, mas tinha que dormir de luz acesa do domingo à sexta-feira, que era quando o medo começava a esvair no meu pensamento. daí vinha o sábado e logo em seguida o domingo, e o ciclo se repetia. 

assumo sem culpa que meu ódio ao domingo me impulsiona criativamente. de fato os momentos frágeis é onde este eu lírico se torna mais agraciado pela latência de seu ofício, porém será que vale a pena? 

o meu blog, os meus blocos de nota, são repletos de um retrato singular de uma pessoa caricata e melodramática, e essa minha skin confronta tudo o que eu tento passar, ou seja: de mocinho à vilão. 

talvez eu lembre das repetidas vezes que minha catequista me disse que Deus descansou no sétimo dia. ou eu lembre de vestir minha melhores roupas, a pedido da minha mãe, para acordar cedo aos domingos e ir à missa, que inclusive era na frente de casa. 

talvez sejam as ressacas. ah, as ressacas. foram muitos lençóis manchados e vergonhas escondidas entre edredons e sais de fruta. algumas das burrices que mais me arrependo, a culpa só veio no domingo, pois no sábado havia todo o êxtase do córtex pré-frontal. mas eu vou culpar o ingênuo sábado por me despertar a persona extrovertida e baladeira? jamais. 

o sábado foi o expoente para eu viver as desgraças mais prazeirosas que eu já vivi (e as mais desastrosas também). a culpa sempre foi o domingo. 

talvez seja por que ele antecede a segunda-feira, injustiçada, só por retomar o ciclo da semana, onde você já se prepara para todos os esporros do seu chefe e para todos os “estou cansado” que a voz da sua cabeça irá repetir entusiasmadamente. é, na verdade, a culpa é do capitalismo, mas como está datado culpabilizar o mesmo, eu prefiro deixar de esmiuçar. 

talvez seja pelo retrato de memória da infância, quando meu avô ia pescar e eu e minha avó decidíamos passar o domingo com a minha madrinha Lourdes em sua casa abraçadora. seria uma memória boa, se minha madrinha não tivesse partido. de uma forma tão, mas tão solitária. 

e por coincidência, foi num domingo que eu soube da sua morte. logo após uma noite de pílulas e álcool, onde meu pai, nada sucinto, às 08h da manhã me pergunta com frieza “Gui tá sabendo que sua madrinha morreu?”. é, agora acabou a retomada de intimidade que eu me propus. acabou o acolhimento daquela pobre criança viada que pintava as unhas  no salão de beleza da madrinha e depois tirava para que não houvesse problemas em casa (leia-se: homofobia). acabou as pizzas congeladas duplamente recheadas e o DVD da Ivete Sangalo no Maracanã no volume mais baixo (por que meu padrinho era insuportável). Lembro de passar o dia todo no quarto com minha avó entre soluços e choros, ouvindo aquela do Ivo Pessoa e me lembrando dela. ah “madri” que saudade. 

mas talvez tudo isso seja apenas eu querendo meter referência goela abaixo, ou tentar romantizar a tristeza de uma forma escrota e zero sensível, e seja só culpa da música do Marcos e Belutti “domingo de manhã” (aquela bomba). 

a verdade é que eu gostaria que todo domingo fosse como o sábado. mesmo eu sabendo que erraria duas vezes numa só semana. 

p.s: que bom seria se fosse apenas duas vezes por semana.

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segunda-feira, 21 de outubro de 2024

e o meu erro foi crer que estar embriagado bastaria

Na verdade, o título não tem tanto a ver com o desabafo. Eu poderia, sim, falar dos malefícios do cigarro, que obstrui minhas faculdades físicas diariamente (frisando veias, pulmões, mãos e todo o sistema respiratório e digestivo), ou das rebeldias de adolescer (salve, Maria Mariana), quando aproveitamos as primeiras camadas da tensão pós-expositora das nossas queixas sociais para descontar no sistema nervoso com excesso de THC entre os 15 e os 21... Mas não. Hoje, simplesmente não estou entusiasmado em embalar minhas referências profundas para tentar aprimorar as técnicas de escrita.  

E, somente, me lembrar da música "Meu Erro", dos Paralamas (aliás, incrivelmente regravada por Chimarruts), que carrega "erro" no nome.  Essa é a "grande" referência metalinguística literária funcional e o caralho da puta que pariu.

A gente custa a entender nossos erros, né? Um idoso que fumou a vida inteira e, agora, aos 80, tem enfisema pulmonar, coloca toda a culpa de seu pulmão perfurado na pandemia da COVID-19. E aqui, sim, indiretamente, cito os malefícios de se embriagar. Mas quais foram os motivos que o levaram a fumar por mais de 50 anos de sua vida? Isso poucos se perguntam.  

Talvez os terapeutas me respondam coisas sobre a fase oral e o desmame do peito. Ah, os terapeutas... Eles só não me irritam mais que os nutricionistas. Mas a questão não é essa.  

Facilmente sei a resposta para o porquê de o senhor idoso ter fumado tantos e tantos caretas em sua curta jornada: a solidão, a frustração e o excesso de erros.  

Hoje eu errei algumas vezes. Tem diminuído com o tempo. Mas, à medida que eu erro, parece que a culpa gruda mais que chiclete de 15 centavos. Um erro versus um turbilhão de caminhões-pipa de culpas.  

Eu já disse que sou um imaturo na arte, que sou mais um dos que reproduz piadas sobre a vida adulta e pagar boletos, e já aposentei uma persona grata do meu âmago e sigo errando. Mas por quê?  

Olho para trás e vejo um caminho tortuoso, mas frutífero, e olho para frente e me sinto à deriva. Que minha fé, ainda que abalada, permita que meus anjos guiem meus caminhos.  

Hoje eu errei. E eu fumaria por 70 anos só hoje.  E o meu erro foi crer que parafrasear Paralamas adiantaria.

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quarta-feira, 28 de agosto de 2024

O pós-pandêmico de um não-sociólogo

Começo esse texto dizendo que parte essencial de eu estar gastando meu sagrado profano tempo de ócio escrevendo em um blog, é porque essa pérola viral da Menina do Ministério Etrom também tinha um blog em meados dos anos Y2K antes de enlouquecer. E se porventura eu venha a enlouquecer, cá estão meus registros sinceros e pessoais para futuros diagnósticos. Aliás, vi fragmentos desse blog através do Tik Tok. E essa rede social sim, tem a ver com o tema central do texto. 

Hoje eu arrisco meu eu-lírico imaturo da arte a tomar a liberdade de esmiuçar um assunto que cabe aos sociólogos. Algo sobre a pós-modernidade. Venha pensado nisso toda vez que meu eu está em estado de expansão, ou seja, quando me meto a me envolver com a Cannabis novamente. Minha ex namorada. Enfim. 

Eu me tornei mais observador nos últimos quatro anos. O Guilherme falante em excesso permaneceu, mas ele deu abertura para uma nova casca de observar mais > falar menos. Nem sempre funcionou. Mas eu me esforcei. Nessas muitas observações eu percebi um padrão que mudou desde 2020, quando passamos pela desgraça pandêmica da epidemia do COVID. Coisas como o obrigatório processo de migração de tudo tátil para o digital me fez roer as unhas. A gente acompanhou o analógico pro digital, mas o digital para o ultra digital assustava. Até pouco tempo atrás eu tinha medo do que a inteligência artificial poderia fazer com o mundo. Hoje, por exemplo, eu peço à mesma para corrigir meu uso de vírgulas antes de publicar um texto. 

As pessoas, que parte delas ficaram em quarentena, quando tomaram as doses das vacinas, começaram a tomar o tempo perdido em casa, perdendo o mesmo na rua. A criminalidade aumentou. Não visualizei nenhum dado preciso dos setores de Segurança, mas eu percebi que aumentou. O meu bar favorito da época da faculdade faliu nesse processo por excesso de ações com armas de fogo nele. Onde eu poderia novamente ser jovial? 

Uma reportagem que me fez chorar, foi sobre o futuro incerto dos circos, cultura esta que já estava morrendo. Era o fim da cultura efêmera e teatral. Dionísio sabe dos medos que nós, artistas das artes da cena, passamos em aposentar as carreiras mal começadas. 

Além disso as muitas uberizações do trabalho e todos os termos da época facilitaram o acesso para a era ultra digital. Essa que minha mãe, professora de primário, reclama. Reclama que os alunos que tiveram aula remota não tinham estrutura familiar suficiente e não foram devidamente alfabetizados. Fora as toneladas de comida que venceram em merendas escolares, estas que já são sucateadas por políticos corruptos que querem a privatização (a falta que as ratoeiras para adultos não faz né). 

Pois bem, tudo em pânico. As pessoas mais doentes. Sejam físicas ou mentais. Hoje psiquiatra por convênio é só para maio do ano que vem. As frases prontas e pensamento acelerado são um eterno….?? Do que estamos falando mesmo?

Fora os crimes cibernéticos que potencializaram com o acesso fácil e o tempo ocioso. E disso eu entendo, quem sabe, sabe.

Tudo isso, e muito mais eu venho chamando de Período Pós-Pandêmico. E com certeza algum sociólogo contemporâneo já deve estar estudando o feito. Mas esse retrato cru e singelo é de alguém que pensa constantemente nisso. E não, não é só pelo uso da Cannabis sativa. 

Hoje em especial, assisti um episódio trágico da minha pequena vila do Chaves (a minha cidade do interior) onde pessoas importantes foram vitimadas por crimes cibernéticos, e acho que isso que desencadeou a minha febre em escrever. A ânsia em botar o desgosto na mesa. Porque eu escrevo quando estou amargo. E esse amargo não é o mesmo de quando o COVID me fez parar de sentir o gosto da comida. É ainda mais estranho. Pós-dramático, Pós-pandêmico, Pós-Moderno. No fim, que se foda, deixem a sociologia para quem se importa com a mesma. 

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segunda-feira, 12 de agosto de 2024

Sou um imaturo da arte

Não fiz dez anos de teatro e nem sabia do método. Vim do teatro de igreja. Nas escolas, sempre o último a ser escolhido quando as práticas eram físicas e não criativas. Que daí eu era requisitado. Na faculdade fiz bons incríveis inestimáveis colegas e singelos amigos. Replicando a arte de ser pouco querido pelos demais. 

Há pouco comecei a me obcecar por biografias. Afinal, elas são retratos e recortes muito sensíveis daqueles que eu admiro. E vejo que a maioria dos grandes talentos foram gestados em meio a aulas de música clássica, dança erudita e Hollywood. Eu não. Minha carreira é pouco ou menos relevante do que da maioria dos professores de bairro (tendo em vista que estes fazem um trabalho muito mais social que eu e a educação está uma bagunça). Das aulas de pintura, eu não prospectei. Do teclado, que era gratuito pela igreja, também fugi. Inglês era caro demais. Cinema era raro por que no interior você via as cópias em DVD pirata gravadas dentro das salas de cinema para poder se inteirar da nova produção e comentar no Twitter. O teatro da escola era sempre démodé. O meu primeiro grande papel foi o de príncipe da Branca de Neve. Ótima performance! Se não fosse este eu-lírico uma criança viada que queria mesmo era o papel de princesa dos cabelos de ébano. Depois, a igreja. A igreja, por mais tirana que agiu na minha adolescência, foi o cenário de tantas inspirações criativas e morais que, de fato, é a ela quem eu devo o crédito. E pasmem, virei um rebelde também por influência da mesma. Entre papéis de Jesus de tecido Oxford, pecados, leilão de uma alma, lifehouse (esse eu choro até hoje), me refaz, etc etc, esse artista (se é que mereço a carteirinha) começou a explorar sua veia inclinada a arte e cultura ali. Antes da missa. Quisera eu que a vida fosse fácil como era na adolescência, período onde eu recebia um tema do coordenador do grupo de jovens, como por exemplo “Inveja” e tinha dali uma semana para criar, ensaiar, montar equipe e apresentar o teatro na igreja. Se eu não fosse este imaturo da arte eu saberia cedo que a arte é menos sobre a parte criativa e mais sobre a parte burocrática. Mas como eu poderia saber? 

É fato que a faculdade elucidou as minhas próprias “faculdades” mentais e me fez me tornar um ser questionador. O que antes era moral, agora não se aplicava. Este imaturo da arte era também imaturo de tudo. Principalmente dos acordes sociais. E essa fixação por revolucionar o mundo foi minha alma dentro da graduação. E também o local expoente por eu confundir sinônimos e antônimos. Aqui, as conversas longínquas e termos academicistas ficaram repetitivos. O patriarcado, as interssecionalidades, o lugar de fala, começaram a ser o tema central das minhas ações. Era um momento de transição da juventude à vida adulta e eu não podia estar sendo mais imaturo. Receio que muitas descobertas da época foram fatores essenciais pro meu desenvolvimento civilizatório, mas ainda assim, foram todos os meus, contados, cinquenta minutos de terapia. Sendo um imaturo, neste cenário, você não pode ser um imaturo. Você conviverá com os amigos da música clássica, da dança erudita, de Hollywood, mas também àqueles sujeitos que vieram de um rabisco no mapa do estado, e por algum motivo, também ecoam na frequência de desejo parecido com o teu, o de “fazer arte”. Muitos deles estavam em situação mais vulnerável que a minha. 

Tudo isso se desmembrou, quando, em sala de aula, eu pedi pra um garoto (que agora o nome do réu já sumiu no inconsciente), fizesse movimentos circulatórios com o quadril para alongar a virilha e o mesmo não fez. No Feedback, após a aula, eu tentei explicar que ele estava reproduzindo um comportamento do patriarcado e que isso já vem engendrado em nós, homens, e devemos estar abertos a desconstruí-lo. A cara de paisagem seguida de um ecoado “QUE?” me fizeram travar. Ué, seria este um sujeito imaturo por não saber todas as nomenclaturas corretas e acadêmicas sobre o machismo? Ou o imaturo sou eu? 

Dali, eu me vi num abismo. Pronto pra pegar voo, mas caí, caí e continuei caindo em queda livre. 

Hoje, eu sou um pouco menos imaturo da arte, mas ainda sendo. Descobri, na dor, que não vou agradar gregos e troianos, tampouco publicanos e fariseus (se o ditado me permite). E que ser um imaturo da arte no fim nem é de todo ruim. Exceto quando você vê os engravatados tomando todos os espaços por terem tido acesso à Hollywood e as aulas de francês. Mas não, não é ruim. Poder ser vulnerável! Rir da própria desgraça. Continuar seguindo o ofício, ainda que com quase nada de incidência. Sou um imaturo da arte pronto pra conhecer outros imaturos. E acho que essa é a graça. A de unir. 

Na contracapa da minha biografia, se esta for mesmo escrita um dia, direi que de nada sei e copiarei um trecho do prólogo de “O Retrato de Dorian Grey”. Nos agradecimentos eu não posso me esquecer da igreja e do menino revoltado por não querer rebolar na aula. No título, não sei. Ainda estou amadurecendo essa ideia (e tantas outras).

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segunda-feira, 4 de março de 2024

A pseudo-metáfora do Capitão Gancho sob tempos reflexivos

Cansei de ver crianças com coriza ganhando os presentes mais caros das lojas de shopping por pura implicância e explicação freudiana para no fim, brincarem com a caixa. se adolescer é como um murro no estômago, "adultescer" é como uma úlcera. dói, e aquela criança que antes tinha a desculpa da birra infantil para se apegar, agora precisa engolir seco. homem não chora. quantas repetidas vezes escutei essa maldosa frase? é claro que chora. faça o teste e tire um dente molar sem anestesia. ou lhe fure o mamilo com uma agulha de ponta espessa. arranque dele suas pessoas preferidas. lhe dê suco de wasabi ou o mande cortar cebola aniversariante (aquela que já passou tempos nos confins da geladeira). isso, não está para discussão de gênero e em demérito das mulheres. para este eu-lírico não há espaço de dúvida. mas desvencilhar esta ideia engendrada nos primeiros dez anos uterinos é de ranger os dentes. eu choro! e eu sou homem! hoje eu, por exemplo, já consigo apagar a luz de um cômodo e não sair correndo com medo do demônio. consigo conceber que a maioria dos demônios estão dentro da gente, e quem os alimenta somos nós. por vezes, me pego pensando na minha promessa-Peter-Pan que fiz aos sete anos: a de que nunca ia crescer. os hormônios e as responsabilidades são a metáfora precisa de Capitão Gancho nesse caso. outro injustiçado. 

as páginas online de piadas ultrapassadas gostam de apontar que ser adulto é só sobre pagar boleto(s). eu finjo risada quando algum sujeito nota 06 me re-conta essa piada. é sobre pagar boletos e o preço daquilo na qual você foi submetido anteriormente, na sua imaturidade demasiada. 

por exemplo, hoje eu tenho menos fôlego que antes devido a alta quantidade de cigarros que fumo diariamente. aliás, esse ano faz dez anos que convivo com minha amiga Nicotina. maldita amizade tóxica. 

além disso, o mais injusto, é quando você paga pelo preço do outro. pais de geração X que decidiram se casar por pura convenção social e que descarregaram um caminhão de traumas em um jovenzinho na primeira infância. ou posso ser mais infame e contar dos inúmeros casos de toques sexuais não solicitados e assédios tantos. mas não preciso.

as vezes, o preço que a gente paga por adultescer é muito mais denso do que apenas boletos. 

vivo o desprazer de criar relações na era menos tátil da história. receio dizer que nem nas muitas pandemias que a história apresentou estávamos tão sem contato. 

as relações esfriaram. acredito no aquecimento global pela fé na ciência e pela onda fria que as geleiras dos polos do globo emanam para as pessoas. romântico? nem tanto. 

hoje eu só gostaria de ser aquele pequeno jovem que brinca com a caixa. que dela vira um avião, um esconderijo de sereias, um vulcão, etc etc. mas não dá, os boletos estão aí para me impedirem. Capitão Gancho você me paga por concordar com piadas básicas.

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segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

Dear Old Pink (finalmente)

 Queridy Pink Mamba, 

Eu havia prometido fazer uma carta para você do passado. Como já havia vomitado antes, eu sempre gosto de escrever cartas para o eu do futuro, e hoje, decidi, sem entender o real motivo, escrever uma carta para o antigo Guilherme. Das palavras bonitas que o blog carrega o nome eu peço licença para desconsiderar. 
Primeiro que o tempo não só envelhece, como adoece, e não gostaria de te desestimular. Algumas coisas de fato melhoram, como por exemplo, você percebe que os bons amigos são aqueles cinco ou seis que ficam, e por mais dolorido que seja despachar pessoas em estações, é satisfatório ver quem ainda está com você. Vida longa as antigas amizades que conheceram suas várias versões. 
Mas sim, o tempo adoece. Literalmente, mas dessa vez, quero romantizar. Você sempre foi uma criança muito imaginativa, criativa, corajosa (em partes) e feliz demasiadamente. Com o tempo, fator crucial pelo adoecimento, parte da sua atividade imaginativa abdicou da cadeira de assento prioritário para as famosas frustrações. E SIM, você continua sendo imaginativo, mas parte do tempo, quase integral, é confabulando os piores cenários, como a morte, que te cerca de todos os ângulos e dando palco pra um colega desagradável que você vai tomar consciência por volta dos 18 anos, o famoso: pânico. 
Antes pânico fosse somente uma franquia de sucesso de Hollywood. Estaria tudo melhor. Mas nem tudo são flores artificiais de cemitério, a criatividade sempre vai andar lado a lado com você. Ela e o Pânico são rivais, pois ela suaviza seus encontros com ele. Além do mais, te asseguro que você irá trabalhar muito com ela. Haverá espasmos criativos quase todos os dias. Irá cursar Artes, que você sempre sonhou e irá trabalhar com várias pessoas que tem pulsões parecidas com a sua. Ímpeto de fazer aquilo que você também sempre sonhou em fazer. De fato, não será um caminho fácil. Você vai encontrar muitos parasitas buscando hospedeiros, mas também muitas pessoas de função inseticida.
É, os problemas com o corpo também mudarão de figura. Se hoje, aí no passado, você se odeia por ter um corpo gordo, aqui no futuro, esse fato é apenas um fator expoente pra você não deixar morrer seu alter-ego, agora aposentado, mas ainda vivo. As preocupações com o corpo serão outras. Muitas delas, têm a ver com o Pânico, mas também com outra adversária: A Autoestima.  
Você irá procurar psicólogos e terapeutas renomados, mas a resposta estará muito mais fácil de acessar do que você imagina. Hoje, sei que a minha ferida mais latente é o medo da rejeição. É, pequeno Guilherme, ela acontece. Não como o clichê de um filme da Disney Channel. (Aliás, aqui no futuro a Disney Channel nem tem mais tanta graça.) 
Você passará um tempo morando com desconhecidos, morará sozinho e retornará, também, para o colo da sua mãe. E se eu pudesse te dar um conselho precioso seria: facilite a vida da sua mãe. Ela, infelizmente, abdicou de muita coisa para que você pudesse ter uma vida confortável e esse seu senso de rebeldia nuclear - EU SEI DE TUDO - EU ODEIO TODO MUNDO -  é completamente deplorável. Você, ainda bem, reestabeleceu uma boa relação com uma família que te aceita e te ama em suas desmedidas e imensidões. 
Sobre aceitação, por mais que o medo da rejeição seja inconsciente, a aceitação liberta. O tempo adoece, mas a aceitação liberta. 
Te aviso para tomar cuidado com os reizinhos que permitir adentrar o seu reino, entenda como quiser. Alguns deles deixarão feridas expostas cheias de larvas em você. E você, de maneira errônea, irá tentar revidar de maneiras catastróficas e vergonhosas. Alguns vilões sequer tem cacife para assumirem esse papel, portanto não dê tanta importância. E ah, pare de atribuir culpa aos outros pelas suas ações e expectativas, isso vai reduzir seus problemas pela metade. 
Você vai conhecer pessoas maravilhosas e mostrar sua alma para elas, mas nesse caminho será fácil se confundir com as controversas. Enfim, sempre sobre pontos de vista. 
Eu te acolho, eu te perdoo, eu te desculpo. E você irá aprender, com o tempo o quanto esse movimento é importante. 



Prometi postar com essa. E sim, você ainda ama a Rainha do Rap. 

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segunda-feira, 4 de dezembro de 2023

Ferida que não Sarah

Sarah tem o nome de origem Hebraica. Estéril até os 99 anos, até que foi mãe de Isaac. Daí, o Deus uno de Gênesis capítulo 17, versículo 15 e 16, diz “De agora em diante sua mulher já não se chamará Sarai; seu nome será Sara.Eu a abençoarei e também por meio dela darei a você um filho. Sim, eu a abençoarei e dela procederão nações e reis de povos".

Conheci Sarah num rompante. Logo me apaixonei. Ela era totalmente subversiva. Poucos anos antes, eu já ouvia falar seu nome pelas bocas injustas e ignorantes. Ah, essa menina beija meninas, diziam. Ela era uma personagem saída dos quadrinhos ou de um filme da A24. De cabelo sempre colorido, e de risada gostosa. Fomos se aproximando, se aproximando. Fiquei completamente apaixonado. Nosso primeiro encontro foi na sua casa vendo clipes conceituais e comendo uma travessa de bolinha de queijo frita no óleo quente. 

Quero frisar que concordo muito com a Mônica Martelli, quando ela diz que nós nos apaixonamos pelos nossos amigos, por que a gente começa a compreender seus defeitos como meras manchas de acne, e começa a deglutir eles como um bom e curado conhaque. Amargo, porém sedutor. E eu me apaixonei por ela. Nesse sentido.

Tivemos muitas trocas verdadeiras. Nós nos mostramos vulneráveis, já choramos juntos. Já dividimos a cama em quatro pessoas. Já realizamos as maiores fantasias juntos. Até me ver transando a pobrezinha já viu. Tínhamos ideias toscas e joviais, como a de tomar remédio para infecção urinária pelo simples fato da urina sair colorida. Nunca me esqueço que, quando ela viu o próprio xixi, decidiu tingir o cabelo com aquele verde encorpado logo em seguida. Qualquer pessoa amaria tê-la por perto. Os cabelos sempre traziam uma nova skin para minha amiga. Teve o branco que dava um ar de atriz pornô, daí teve o ½ rosa ½ laranja da Hayley Williams, daí teve o azul sereia, o rosa harajuku e finalmente o verde xixi (meu preferido). 

Sarah sempre teve facilidade com cabelos. Ela era uma das únicas que eu confiava para desenhar com a maquininha no meu couro cabeludo. Fazia uma excelente hidratação, fazia tranças africanas, fazia penteados incríveis. Foi com ela que a minha afilhada cortou o cabelo pela primeira vez. É claro que tem que ser com ela, ela é minha amiga, bati o pé. Ela também esteve nos meus bastidores em 2018, numa peça mal escrita que fiz na minha cidade natal, inspirada pelos espetaculares contos de Agatha Christie. Que senso corajoso. O texto virou uma desonra ao legado de Christie, porém ficaram boas lembranças da época. Sarah fez o cabelo de todas as minhas atrizes, e o seu cachê foi puramente créditos nas linhas finais do espetáculo. Mas ela deu o nome na festa que fizemos depois, como sempre. 

Durante a desgraça da década de 20 do século 21, auge do medonho Covid, Sarah perdeu o seu pai. Seu pai era um tiozão, totalmente querido, que passava a melhor bisteca de todas, e que adorava receber os amigos da Sarah na sua casinha abraçadora. Foi um momento terrível. É sempre importante lembrar que, na época, os velórios duravam menos que de costume, e que você podia prestar condolências às pessoas que perderam entes queridos apenas de longe e não podia abraçá-las. Não podia desejar os sinceros sentimentos. Não podia. Principalmente se a causa da morte fosse o Covid. Eu estava lá. Ouvi seus gritos, Sarah, desejando que aquilo não fosse real. Mas seu pai descansou, depois de semanas de saturação baixa e descasos políticos quanto à vacinação. Essa culpa sempre irei atribuir ao presidente da época. Jamais o perdoarei. 

Pois é, nem tudo são flores. Sarah sempre se apaixonou pelas pessoas mais encruadas. O que ela tinha de saúde no resto do corpo, ela tinha de necrose no dedo indicador da mão direita. Nunca vi. Já cheguei a questioná-la e ela sempre desviava o assunto. Alguns foram marcantes, outros foram meros figurantes de uma fala só, como aquela garçonete da lanchonete pin-up, ou um porteiro carismático de uma novela qualquer. 

Um destes figurantes, deu à Sarah a benção de ser mãe. Assim como Abraão fez com Sarai na Bíblia por intermédio do Deus uno de Gênesis. Ao contrário do texto bíblico, Sarah não teve um menino e sim uma menina. A escolha do nome foi especial, porque a única outra referência de mesmo nome, era uma drag queen de um reality show que eu amava na época da sua gestação. Colocamos uma música de ballroom e foi a única dentre tantas que a bebê se mexeu durante horas tentando influenciá-la a gostar de rock alternativo ou as clássicas da MPB. Tarde gostosa, nós nos matamos de rir. 

Diante de todos os relacionamentos frustrados, choros encargados e cárceres privados que eu assisti minha amiga Sarah vivendo, o mais dolorido foi o último. E esse relacionamento é o porque eu tomo nota deste texto. Ela se apaixonou por uma mulher. 

Essa mulher nasceu na década de 80, em algum bairro dos Estados Unidos, filha de outra branca bem conhecida. Parida no epicentro do Capitalismo, e ficou rapidamente conhecida no mundo inteiro. Pois é. Para os rápidos no gatilho, vocês já sabem de quem eu estou falando. Para os mais lentos, que fortaleçam a memória. Para os céticos, que doença mais terrível. Para os cristãos, obra do inimigo. 

Sarah e essa mulher se conheceram por intermédio do próprio encourado. Concordo com os cristãos, às vezes, quase nunca. Dessa vez sim. O encourado começou a namorar Sarah rapidamente. Como um adicto. Ela estava trabalhando numa livraria, trabalho este que, sempre combinou esteticamente com a mesma, e o encourado foi lá imprimir um currículo. Não sei como nem quando isso aconteceu, mas confabulo uma cena meio de filme romântico. Os relacionamentos costumam surgir na falta de algo, e este não foi diferente. Ela vinha de anos recheados de solidão pela maternidade, pelo descaso do figurante que a deixou prenha, mãe em tempo integral, prestadora de serviço em horário comercial, órfã de pai, sem muitas prospecções. E se debulhou no encourado. 

Sarah não me contou do novo namorado, eu fui ver pelas redes sociais que ela havia começado a namorar. Mandei mensagem e ela me contou estar morrendo de amores. Ufa, minha amiga será correspondida, pensei. Que este namoro venha com tudo de bom que ele possa vir. Amém. 

Eu estava errado. Errado. Logo o encourado começou a se mostrar vulnerável e agressivo. O rosto dele não o deixava mentir, por mais que eu caia na besteira do estereótipo, e isso soe preconceituoso. Sigo crente de que pessoas carcerárias, devem ser ressocializadas na sociedade sim, porém, ainda peco em colocar todos numa mesma caixa. Abraão que me perdoe. 

Finalmente o conheci, no começo de outubro de 2022. A pandemia estava flexibilizando os contatos, e trombei com o casal. Minha amiga sempre linda e alegre, estava pálida e apática. AMIGA QUE SAUDADE. oi amigo, tudo bem? CLARO QUE NÃO NÉ, FAZ MESES QUE NÃO TE VEJO. pois é, tô sumidinha. Que diálogo mais tosco. Combinei ele ainda com vodka vermelha e refrigerante de laranja. Muito prazer, encourado, me chamo Guilherme. O filho da puta ainda se mostrou abraçador, como a casa do falecido pai da minha amiga. Logo foram embora, de maneira discreta e ali eu ainda não podia prever o que minha amiga iria passar quando abrisse o seu relacionamento para a mulher entrar. Vamos chamar essa mulher de Cramunhão. 

Depois disso, passaram-se semanas discretas que eu não tive notícias da minha amiga. É claro que o senso deturpado e egoico do eu-lírico que aqui transcrevo esta experiência, procurou nos resquícios das doenças mentais de caráter sabotador, algo para se culpar. Talvez eu tenha uma parcela de culpa, mas se eu jogar larvas nessa cicatriz ela volta a ficar ferida. 

Ah, que saudade da minha amiga Sarah. Aquela minha amiga que estava sempre comigo, que me abrigou em sua casa quando eu tive desentendimentos físicos com o marido da minha mãe, que fazia o melhor bolo de floresta negra, e tinha a audácia de colocar pimenta biquinho em todo e qualquer molho vermelho. Aquela minha amiga, que cantava  “Solitária” da Banda mais bonita da cidade, e que ia, frequentemente, comigo até ao cemitério para queimar um baseado. Será que dali surgiu a vontade de se relacionar com a mulher que hoje namora? Receio que, frequentemente, me pego pensando como um ex capitão do exército nesses meus moralismos. 

As notícias correram, e na cidade do interior que eu vivia, não demorou muito para chegar até mim. Sarah estava envolvida não apenas com o encourado, mas também com o Cramunhão. Que baque! E eu pensando que coisas assim só aconteciam nas minisséries e nos filmes dramáticos, e em cenários apoteóticos dos polos culturais do país. Mas não. Está mais perto do que imagina. Logo ali, na pessoa que dividia cama, piras, e intimidades comigo. Na minha amiga Sarah. 

Daqui adiante houveram inúmeras situações de embrulhar o estômago, e Sarah morou na minha cabeça por noites e noites, sem pagar aluguel. Quantos cabelos brancos eu não adquiri, hein. E reencontrar amigos da época onde vivíamos nossas mais deliciosas aventuras joviais era como um nocaute. Falar sobre a Sarah, pensar nela, ouvir falar dela, responder perguntas indesejadas sobre ela. Tudo muito delicado e sensível. Dediquei uma peça de teatro a ela. Era um dos poucos mínimos que eu fazia no meu extremo. Além disso, fui até a Igreja Presbiteriana para ver o pseudo-batismo de sua filha. E ela era a única que não estava presente. Aliás, o sentimento era que eu era o único presente. Sua família toda sentindo aquela angústia interna da perda e do luto de alguém que estava viva. Mas que a gente não recebia notícias sólidas. Você me paga por me fazer ir na igreja de crente, Sarah. Você me paga. 

Os soluços discretos da viúva do pai, as olheiras dos olhos da tia, o mal-estar inquieto do irmão, e a inocência da sua filha foram cenas dramaticamente marcantes. O Figurante que a embuxou estava lá. Mal olhei pra ele. Dedo necrosado esse o da minha amiga, já disse. O Pastor era seu tio, e ele chamou toda a família para subir no altar. Eu fui o único a ficar sentado nas cadeiras desconfortáveis da igreja. Depois, a célebre comemoração fúnebre foi marcada por um café da manhã, e preciso admitir que fui tão bem tratado que até pensei em voltar. Maldito ceticismo. 

Enquanto escrevo, não tenho certeza do seu paradeiro e tampouco da minha fé que você saia disso. Se alguém que estiver lendo isso ainda não entendeu, peço desculpa a quem se incomodar, mas devo admitir que, mesmo usando nomes fictícios, a história é real. O Cramunhão é uma metáfora sobre uma famosa droga que mata anualmente várias pessoas pelo mundo. O Crack. Hoje, qualquer comentário que seja indigesto sobre o assunto, não passa mais pelos meus ouvidos desatentos. E minha amiga, me desculpe, dar um nome tão tosco ao texto, é que isso tudo é uma grande ferida que não sara. Como o nome pressupõe. 

Esse é um relato sincero de uma pessoa que está longe e perto de uma amiga adicta, e sinto o desejo estarrecedor de que as pessoas possam saber o quanto isso dói. Isso sim é política antidrogas. Não aquela xoxeira de Proerd. Que os céus, e quem possa ajudar, me ajude a encontrar paz nessas feridas, e que eu possa ter a possibilidade de repetir muitos “te amos” pra minha amiga ainda. Em vida. 


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sexta-feira, 24 de novembro de 2023

Solicitação de Benefício por Incapacidade Permanente da minha persona Pink Mamba

 Hoje estamos nos encaminhando para o fim de Novembro. Começo de Dezembro de 2023. Muitas coisas aconteceram nesse ano. Coisas desconfortáveis da vida adulta. Uma frase que permeou os ouvidos dos meus amigos & colegas esse ano foi "poxa, a vida adulta chega sem lubrificante", pois eu repeti ele demasiadamente como um louro. 

Também hoje, é sexta-feira, black friday, e eu resolvi escrever neste blog sem me importar com concordâncias nominais e qualquer termologia da gramática, pois me sinto completamente desprendido da necessidade das "palavras bonitas" que carrega o nome do blog. 

Assumo também que, quando voltei a usar esta plataforma, imaginei que fosse ter muitos mais momentos ociosos onde eu poderia só vomitar coisas que antes eu guardava a sete chaves dentro do Bloco de Notas, mas como eu disse e repito: a vida adulta chega sem lubrificar. 

Hoje, fim de Novembro, sexta-feira, black friday, pela manhã, me coloquei a pensar o quanto eu já fui mais interessante. Seria desonesto admitir que isso diz respeito unicamente à aparência física. De fato, as linhas de expressão e manchas na pele tomaram os lugares dos piercings e roxos no pescoço (fruto de uma vida sexualmente ativa e mais feliz), mas hoje, novembro, fim, sexta-feira, black friday, pela manhã, percebo que isso está para além. 

Antes minhas prosas eram recheadas de uma personalidade que não ligava para ser errônea e desbocada, que poderia facilmente ser um personagem escrito por Chico em "Ópera do Malandro", cheio de frases prontas, conversas inteligentes, flertes inesperados e vocábulo academicista. Hoje, fim de Novembro, sexta-feira, black friday, pela manhã, durante os pensamentos decisivos, percebo que minha personalidade mais se assemelha àquelas que eu tanto tinha o costume de criticar. 


Não me importo tanto mais com os termos academicistas, por que a maior parte das pessoas que coexistem comigo são nefastas no quesito. E eu preciso presar pela boa vizinhança. Hoje, [insira aqui a introdução linear crescente que vim desenvolvendo nos parágrafos acima], as frases prontas são outras, que tudo resume em "estou cansado", "preciso de saúde", etc etc. As conversas inteligentes foram recalcadas por um compilado de fofoca e relatos de uma vida nostálgica. E hoje, sinceramente, eu prefiro por um fone e ouvir qualquer instrumental clássico a ter que conversar com as pessoas. Os flertes inesperados se tornaram alergias. Eu explico. 

 A alergia são reações do sistema imunológico a substâncias estranhas, numa rápida pesquisa pela inteligência artificial. Eu sofro com rinite alérgica há muitos anos. Minha infância foi marcada por idas e vindas na minha amada Otorrino Dr. Andréia, por conta da mesma. Hoje, [insira aqui a introdução linear crescente que vim desenvolvendo nos parágrafos acima pt. 2], a rinite alérgica, piora o quadro de seis em seis meses, mas não de forma religiosa. As vezes eu fico com mais coriza, com o céu da boca coçando e dermatite de contato. Assim como os flertes inesperados. Acontece, porém, na frequência de uma crise alérgica. Até por que não me sobra tempo e eu decidi não priorizar. 

Portanto, Hoje, e foda-se a introdução repetitiva, eu lembro de uma amiga que em meados de 2018 me contou que aposentou sua persona, alcunhada pela mesma de Rúbia, e que posteriormente, descobrimos ser o nome de uma entidade que ela incorporava. Coincidências sobrenaturais. Mesmo adulto ainda não me acostumo. E, eu nunca me senti como a mesma. 

Desenvolvi um alter-ego nominado por mim de "Pink Mamba" para lidar com alguns sentimentos, como a rejeição e o distanciamento da autoestima. Pink pela rebeldia, Mamba pela acidez, Pink Mamba por conta do filme do Tarantino, onde temos a Black Mamba, e por Pink ser o título de três álbuns da minha artista favorita no mundo: Nicki Minaj. Fez sentido por muito tempo. Mas, hoje, solicito sua aposentadoria. Não me causa mágoa. Eu prometo escrever um texto de "Dear Old Pink" pra ela, mas este não é o momento. 

Poderia facilmente colocar todos esses parágrafos para "serem melhorados" pela inteligência artificial, mas vou aproveitar do privilégio de ainda poder me expressar pelo recurso da escrita, antes que seja tarde. Espero que esteja convincente o suficiente esta justificativa de solicitação de benefício (aposentadoria) por incapacidade permanente desta persona, eu só não sei a quem endereçar. 

Enfim, cansado de escrever... Hoje, fim de novembro, sexta-feira, black friday, pela manhã, nos momentos decisivos e nostálgicos, e como de costume. 

Nova Esperança, 24 de Novembro de 2023. 

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sexta-feira, 15 de setembro de 2023

Feliz dia dos Pais. Agosto de 2023

 Oi pai. 

Não é a primeira vez que eu te entrego algo em mãos e fujo para esperar sua possível reação. Lembra quando eu gravei um vídeo para você me deixar cursar Artes com vários amigos e amigas que me apoiavam? Pois bem.

Bom, tenho receio de usar certas figuras de linguagens e meias palavras com você. Você sempre me passou um ar de seriedade e eu não sei até que ponto eu posso chegar nas brincadeiras. 

Meu jeito sempre foi e continua sendo assim. O sujeito que usa de recursos linguísticos pra camuflar muita coisa intrínseca. E talvez você nem saiba o que “intrínseca” significa, mesmo por que sua área de atuação é outra, mas, é o que eu disse… eu sou assim. 

Antes eu até achava que fosse difícil a nossa comunicação. Hoje eu entendo que ela funciona como os velhos “Walkie-talkie” funcionavam nos anos 80. Eu te comunico algo pontual. Você ouve. Comenta algo pontual. Eu ouço. Câmbio desligo. 

Tudo bem, hoje eu torno sólida a ideia de que sua criação foi outra, que os tempos mudaram e que se você aumentasse o tom de voz com seu pai, meu falecido avô João, ele te meteria um murro na boca que levaria todas as coroas da sua arcada dentária no punho. 

E tudo bem, eu já entendi que eu também não o entendo. O Renato Russo tinha razão quando disse isso, por mais que Legião Urbana esteja completamente saturado hoje em dia. Até minha hipnoterapeuta disse isso. Não sobre a banda de rock, mas sobre eu não te compreender. 

Quando eu nasci, cru, uma folha em branco, você já era macho criado. Afeiçoado pela família, bem querido e, por vezes, mal intencionado. Galanteador, com voz de cerimonialista, radialista e de piada ensaiada. 

Eu fui me construindo e aos poucos, percebendo o abismo que existia entre nós. Você tinha teus amigos homens e eu sempre me identifiquei mais com as minhas amigas meninas. Você idolatrava o São Paulo Futebol Clube e eu, idolatrava a Xuxa rainha dos baixinhos. Você via futebol às quartas, e eu odiava as quartas-feiras porque sempre a novela das nove (na época das oito) era mais curta que nos demais dias. 

Você me colocou na escolinha de futsal, mas eu morria por dentro por que eu amava dança e Ballet parecia um sonho inalcançável. Talvez eu tenha virado artista por rebeldia. Algum analista concordaria comigo. 

Veio sua doença, e com ela, uma hipótese pequena pra uma pequena criança de crescer sem o pai presente. No caso, morto. Quis os céus que não fosse esse o destino. Sua morte repentina. Talvez eu até fosse mais conturbado do que eu já sou, caso esse tivesse sido o enredo. Felizmente não foi. Mas o pai presente, nem sempre, esteve vivo. 

A distância entre nossas realidades me impediu de te contar tantas verdades sobre mim e ouvir os conselhos sinceros de alguém que, genuinamente, só me queria bem. Você não soube do meu primeiro beijo, da minha primeira vez, do meu primeiro porre, entre outros. 

Eu também pequei. Eu reconheço. Mas com meu entendimento de hoje, eu vejo que eu já nasci errado. A gente que é assim, já nasce “com um certo problema”. Fui o “problema” de algumas professoras, catequistas, e vivenciei horríveis e traumáticas experiências de bullying. E você não soube. Eu não podia te contar. E ah… como eu quis te contar.

Depois veio a separação, e sinceramente, fora do meu inconsciente ela não foi tão ruim. E por mais que eu saiba que há coisas intrínsecas (a palavra aqui de novo) nesse rompimento, eu nunca identifiquei taticamente os malefícios disso. Porque o meu Pai não podia saber das verdades sobre mim. De quem eu era. Ele longe era mais fácil de esconder. 

Quantas vezes eu já não corri esconder bonecas da Karina, minha melhor amiga, quando você chegava para não sofrer represália. E nisso eu devia ter menos de 05 anos. Como eu poderia estar sendo punido (ou temendo a punição), por ser quem eu era? 

Por que eu não podia ter uma boneca da Ariel? Eu sempre amei a Ariel. Agora já na faixa dos vinte anos eu fui até ao cinema assistir A pequena Sereia e foi um abraço naquela criança que tinha sua boneca escondida. Me emocionei muito no filme. 

Voltando pra linha do tempo, não bastasse eu já ter dado “errado”, eu tinha que ouvir todas as mais cruéis barbáries da sua boca sobre pessoas que eram IGUAIS a mim. Que tinham o mesmo defeito. Que também deram errado. Mesmo cruas, folhas em branco, deram errado. Foi muito dolorido. 

Eu disfarcei. Não muito bem. Me diga você. 

Quantas, milhões de vezes, eu desejei a minha própria morte a não ter que te contar toda a verdade sobre minha realidade. Sobre algo que eu sequer tive escolha. Sobre ser quem eu sou. Nessa caminhada, muitos outros não tiveram o êxito que eu tive em me manter vivo. E em citar isso eu também morro um pouco. 

E se não bastasse já ter dado errado antes, eu ainda optei por ser artista. Que hoje vejo ser um pulsar de luz, um fulgor diante de toda às avessas escuridões. Mas que me custou ouvir mais, incontáveis, comentários teus. 

Fui muitas vezes ignorante, muitas vezes joguei merda no ventilador e eu não culpo o mapa astral ou nada. Eu assumo esse boletim de ocorrência. Talvez meu traço mais masculinizado seja ter a pose sisuda quando creio na minha verdade ou quando boto o rabo entre as pernas e reconheço onde pequei. 

Eu te perdoo por tudo. E antes que algum de nós mude de dimensão, eu quero deixar isso muito nítido. Eu te perdoo por tudo. Por não estar presente nas minhas peças teatrais, por não me ver no Ballet, por não acompanhar e aconselhar minhas primeiras vezes, pelo abismo da nossa relação, pela falta de ímpeto em unir a minha figura a todo o resto da minha família paterna e principalmente, por você ter prospectado tanto esse momento que agora se encerra. Esse momento em que eu te digo a maior e mais dolorosa frase: Pai, sim, eu sou gay! 

E não há cura, não há pecado, não há dinheiro, não há partido político ou entidade que vá mudar isso. É sobre quem eu sou. É sobre com quem eu me relaciono. É sobre mim. 

E também peço desculpa por quebrar suas expectativas jogadas sobre mim. Mas isso é sobre você! É sobre o seu processo de evolução entender. E você que deve lidar com isso. 

Eu te amo, por mais cinza que às vezes eu possa parecer e imaturo. É só pelo Guilherme que teve sua Ariel escondida lá atrás. Quero muito acalenta-lo. 

E acabou os momentos de angústia que antecederam esse dia. Acabou os momentos de camuflagem da minha melhor faceta, e que se encerre aqui tudo que, eu, um dia, temi. Esse ciclo se encerra aqui. Apenas um homem forte como eu, filho de um homem forte como você, poderia fazer isso. 


Câmbio desligo. Guilherme Stella. 13/08/2023.


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